Scholarly article on topic 'Impacto do uso de anticoncepcional oral nas características e na evolução clínica de mulheres submetidas à intervenção coronariana percutânea primária'

Impacto do uso de anticoncepcional oral nas características e na evolução clínica de mulheres submetidas à intervenção coronariana percutânea primária Academic research paper on "Educational sciences"

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OECD Field of science
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{"Anticoncepcionais orais" / "Infarto do miocárdio" / "Intervenção coronária percutânea" / "Oral contraceptives" / "Myocardial infarction" / "Percutaneous coronary intervention"}

Abstract of research paper on Educational sciences, author of scientific article — Giordana Zeferino Mariano, Márcia Moura Schmidt, Maria Augusta Maturana, Eder Quevedo, Bianca de Negri, et al.

RESUMO Introdução Em nosso, país estima‐se que aproximadamente 27% das mulheres em idade fértil utilizem anticoncepcional oral (ACO). A apresentação e a evolução clínica do infarto agudo do miocárdio (IAM) nessas mulheres ainda não foi descrita em nosso meio. O objetivo do presente estudo foi analisar o perfil clínico, as características angiográficas, os aspectos técnicos do procedimento e os desfechos de usuárias de ACO que tiveram IAM e foram encaminhadas à intervenção coronariana percutânea (ICP) primária. Métodos Mulheres < 55 anos que apresentaram IAM com supradesnivelamento do segmento ST e foram encaminhadas à ICP primária foram sequencialmente incluídas e categorizadas em dois grupos: com e sem uso atual de ACO. Resultados Incluímos 257 pacientes, sendo que 19 (7,4%) usavam ACO. Estas eram mais jovens (42,3±6,2 anos vs. 48,4±5,7 anos; p < 0,001), com menos fatores de risco tradicionais para doença arterial coronariana, mas apresentavam proteína C‐reativa e fibrinogênio séricos mais elevados. O delta T foi semelhante (4,00 [1,25 a 6,86] horas vs. 4,50 [2,50 a 7,64] horas; p =0,54), mas o tempo porta‐balão foi maior nas pacientes em uso de ACO (1,41 [0,58 a 1,73] hora vs. 1,16 [0,91 a 1,51] hora; p =0,02). Estas pacientes foram mais frequentemente submetidas à tromboaspiração (52,6% vs. 25,6%; p =0,04). Após o evento índice, elas não apresentaram desfechos aterotrombóticos em até 2 anos de acompanhamento (0 vs. 15,2%; p =0,08). Conclusões Neste estudo, encontramos perfil clínico e desfechos diferentes entre mulheres em idade reprodutiva, usuárias ou não de ACO, e submetidas à ICP primária. Estudos com maior número de pacientes são necessários para confirmar tais resultados. ABSTRACT Background In Brazil, it is estimated that approximately 27% of women of childbearing age use oral contraceptives (OC). The presentation and clinical course of acute myocardial infarction (AMI) in these women has yet to be described in Brazil. The aim of this study was to analyze the clinical profile, angiographic characteristics, technical aspects of the procedure, and the outcomes in women using OC who had an AMI and were submitted to primary percutaneous coronary intervention (PCI). Methods Women aged < 55 years who had acute ST segment elevation myocardial infarct and were referred to primary PCI were sequentially included and categorized into two groups: with and without current use of OC. Results We have included 257 patients, of whom 19 (7.4%) used OC. These patients were younger (42.3±6.2 years vs. 48.4±5.7 years; p < 0.001), with fewer traditional risk factors for coronary artery disease, but had higher serum levels of C‐reactive protein and fibrinogen. The delta T was similar (4.00 [1.25 to 6.86] hours vs. 4.50 [2.50 to 7.64] hours; p =0.54), but the door‐to‐balloon time was longer in patients taking OC (1.41 [0.58 to 1.73] hour vs. 1.16 [0.91 to 1.51] hour, p =0.02). These patients were more frequently submitted to thrombus aspiration (52.6% vs. 25.6%; p =0.04). After the index event, they had no atherothrombotic outcomes in up to 2 years of follow‐up (0 vs. 15.2%; p =0.08). Conclusions In this study, different clinical profiles and outcomes were found among women of reproductive age, users or non‐users of OC, and submitted to primary PCI. Studies with a larger number of patients are required to confirm these results.

Similar topics of scientific paper in Educational sciences , author of scholarly article — Giordana Zeferino Mariano, Márcia Moura Schmidt, Maria Augusta Maturana, Eder Quevedo, Bianca de Negri, et al.

Academic research paper on topic "Impacto do uso de anticoncepcional oral nas características e na evolução clínica de mulheres submetidas à intervenção coronariana percutânea primária"

Rev Bras Cardiol Invasiva. 2015;23(3):190-194

Artigo Original

Impacto do uso de anticoncepcional oral nas características e na evolugao clínica de mulheres submetidas a intervengao coronariana percutanea primária

Giordana Zeferino Marianoa, Márcia Moura Schmidta, Maria Augusta Maturanab, Eder Quevedoa, Bianca de Negric, Cristina Gazetad, Alexandre Schaan de Quadrosa*, Carlos Antonio Mascia Gottschallae

a Instituto de Cardiología do Rio Grande do Sul/Fundafño Universitaria de Cardiologia, Porto Alegre, RS, Brasil b Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil c Universidade Luterana do Brasil, Canoas, RS, Brasil

d Universidade Federal de Ciencias da Saúde de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

INFORMALES SOBRE O ARTIGO RESUMO

Introdufáo: Em nosso, país estima-se que aproximadamente 27% das mulheres em idade fértil utilizem anticoncepcional oral (ACO). A apresentagao e a evolugao clínica do infarto agudo do miocárdio (IAM) nessas mulheres ainda nao foi descrita em nosso meio. O objetivo do presente estudo foi analisar o perfil clínico, as características angiográficas, os aspectos técnicos do procedimento e os desfechos de usuárias de ACO que tiveram IAM e foram encaminhadas a intervengao coronariana percutanea (ICP) primária. Métodos: Mulheres < 55 anos que apresentaram IAM com supradesnivelamento do segmento ST e foram encaminhadas a ICP primária foram sequencialmente incluídas e categorizadas em dois grupos: com e sem uso atual de ACO.

Resultados: Incluímos 257 pacientes, sendo que 19 (7,4%) usavam ACO. Estas eram mais jovens (42,3 ± 6,2 anos vs. 48,4 ± 5,7 anos; p < 0,001), com menos fatores de risco tradicionais para doenga arterial coronariana, mas apresentavam proteína C-reativa e fibrinogénio séricos mais elevados. O delta T foi semelhante (4,00 [1,25 a 6,86] horas vs. 4,50 [2,50 a 7,64] horas; p = 0,54), mas o tempo porta-balao foi maior nas pacientes em uso de ACO (1,41 [0,58 a 1,73] hora vs. 1,16 [0,91 a 1,51] hora; p = 0,02). Estas pacientes foram mais frequentemente submetidas a tromboaspiragao (52,6% vs. 25,6%; p = 0,04). Após o evento índice, elas nao apresentaram desfechos aterotrombóticos em até 2 anos de acompanhamento (0 vs. 15,2%; p = 0,08).

Conclusoes: Neste estudo, encontramos perfil clínico e desfechos diferentes entre mulheres em idade reprodutiva, usuárias ou nao de ACO, e submetidas a ICP primária. Estudos com maior número de pacientes sao necessários para confirmar tais resultados.

© 2015 Sociedade Brasileira de Hemodinamica e Cardiología Intervencionista. Publicado por Elsevier Editora Ltda.

Este é um artigo Open Access sob a licenga de CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/Iicenses/by-nc-nd/4.0/).

Impact of oral contraceptive use on the characteristics and clinical evolution of women undergoing primary percutaneous coronary intervention

ABSTRACT

Background: In Brazil, it is estimated that approximately 27% of women of childbearing age use oral contraceptives (OC). The presentation and clinical course of acute myocardial infarction (AMI) in these women has yet to be described in Brazil. The aim of this study was to analyze the clinical profile, angiographic characteristics, technical aspects of the procedure, and the outcomes in women using OC who had an AMI and were submitted to primary percutaneous coronary intervention (PCI).

Methods: Women aged < 55 years who had acute ST segment elevation myocardial infarct and were referred to primary PCI were sequentially included and categorized into two groups: with and without current use of OC. Results: We have included 257 patients, of whom 19 (7.4%) used OC. These patients were younger (42.3 ± 6.2 years vs. 48.4 ± 5.7 years; p < 0.001), with fewer traditional risk factors for coronary artery disease, but had higher serum levels of C-reactive protein and fibrinogen. The delta T was similar (4.00 [1.25 to 6.86] hours vs. 4.50 [2.50 to 7.64] hours; p = 0.54), but the door-to-balloon time was longer in patients taking OC (1.41 [0.58 to 1.73] hour vs. 1.16 [0.91 to 1.51] hour, p = 0.02). These patients were more frequently submitted to thrombus

* Autor para correspondencia: Instituto de Cardiologia/Fundagäo Universitaria de Cardiologia, Avenida Princesa Isabel, 395, Santana, CEP: 90620-001, Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: alesq@terra.com.br (A.S. Quadros).

A revisäo por pares é de responsabilidade da Sociedade Brasileira de Hemodinamica e Cardiologia Intervencionista. http://dx.doi.org/10.1016/j.rbci.2016.02.001

0104-1843/© 2015 Sociedade Brasileira de Hemodinamica e Cardiologia Intervencionista. Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este é um artigo Open Access sob a licenga de CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Histórico do artigo: Recebido em 8 de junho de 2015 Aceito em 26 de agosto de 2015

Palavras-chave: Anticoncepcionais orais Infarto do miocárdio Intervençâo coronária percutânea

Keywords:

Oral contraceptives Myocardial infarction Percutaneous coronary intervention

aspiration (52.6% vs. 25.6%; p = 0.04). After the index event, they had no atherothrombotic outcomes in up to 2 years of follow-up (0 vs. 15.2%; p = 0.08).

Conclusions: In this study, different clinical profiles and outcomes were found among women of reproductive age, users or non-users of OC, and submitted to primary PCI. Studies with a larger number of patients are required to confirm these results.

© 2015 Sociedade Brasileira de Hemodinamica e Cardiologia Intervencionista. Published by Elsevier Editora Ltda. This is an open access article under the CC BY-NC-ND license (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introdujo

O infarto agudo do miocárdio (IAM) afeta mais homens do que mulheres. Nestas, durante a idade reprodutiva, a fisiopatologia do evento está mais frequentemente relacionada a trombose.1 Dentre os fatores de risco conhecidos para trombose, está o uso de anticoncep-cionais orais (ACO). Tal risco é potencializado em pacientes com con-ditoes associadas, como tabagismo, hipertensao arterial, obesidade e dislipidemia.2 A associa^ao entre a trombose venosa e o uso de ACO é bem definida, e há diversos estudos que demonstram o aumento do risco de IAM e acidente vascular cerebral (AVC) isquémico.2-4

Em nosso país, estima-se que aproximadamente 27% das mulheres em idade fértil utilizem ACO.5 A apresenta^ao e a evolu^ao clínica do IAM nessas mulheres nao foi descrita em nosso meio, o que seria útil para auxiliar médicos e pacientes no manuseio dessa conditao. O objetivo do presente estudo foi analisar o perfil clínico, as características angiográficas, os aspectos técnicos do procedimento e os desfechos de usuárias de ACO que tiveram IAM e foram encaminhadas a intervengo coronariana percutanea (ICP) primária.

Métodos

Pacientes

Todas as mulheres com idade < 55 anos, que apresentaram IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCST) e foram encaminhadas a ICP primária, no período de 1° de dezembro de 2009 a 30 de maio de 2015, foram consideradas para o estudo. Os critérios de exclusao foram delta T > 12 horas e recusa em participar do estudo. As pacientes foram categorizadas em dois grupos: com e sem uso atual de ACO, a partir das informales obtidas no prontuário.

O IAMCST foi definido de acordo com os seguintes critérios: presenta de dor típica em repouso associada a supradesnivelamento do segmento ST de pelo menos 1 mm em duas derivares contíguas no plano frontal, ou 2 mm no plano horizontal.

O estudo foi aprovado pelo Comité de Ética da instituido e todos os pacientes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Procedimentos

Os procedimentos de ICP primária foram realizados conforme descrito na literatura.6 Aspectos técnicos específicos, como via de acesso, administrado de fármacos, tipo de stent e tromboaspira^ao ficaram a critério dos operadores.

Investigadores treinados realizaram as entrevistas clínicas. Dados demográficos, fatores de risco para cardiopatia isquémica, historia médica pregressa e apresentatao clínica do evento foram coletados. A avalia^ao laboratorial foi realizada de acordo com as rotinas do atendimento da instituido.

As avaliatoes angiográficas foram realizadas por um sistema ele-tronico digital previamente validado (Siemens Axiom Artis, Siemens, Munique, Alemanha), sendo avaliadas as seguintes variáveis: núme-

ro de vasos com estenose > 50% da luz do vaso, artéria coronária tratada, e presenta de trombo e de calcificado angiográfica.

Desfechos e definifdes

Os pacientes foram acompanhados no período hospitalar, sendo registradas as ocorréncias de eventos cardiovasculares maiores (ECVM) e seus componentes isolados óbito cardiovascular, IAM re-corrente ou nova ICP, AVC, trombose do stent, sangramento maior, sangramento menor e insuficiéncia renal aguda. O seguimento em 1 ano e 2 anos após o evento foi realizado por telefone, sendo contabilizados os ECVM, óbito cardiovascular, IAM recorrente, AVC isquémico e trombose do stent.

IAM recorrente foi considerado quando ocorria nova elevado > 0,1 mV do segmento ST, ou novas ondas Q, em pelo menos duas derivatoes contíguas, particularmente quando associada com sintomas de isquemia por mais de 20 minutos. AVC foi definido como défice neurológico focal, de início súbito, irreversível, nas primei-ras 24 horas. Classificou-se como trombose do stent a oclusao súbita do vaso tratado, confirmada por angiografia. Sangramento maior foi definido como a ocorréncia de hemorragia clinicamente evidente com queda dos níveis de hemoglobina > 5 g/dL ou hemató-crito > 15%, ou desenvolvimento de AVC hemorrágico, ou hemorragia relacionada a cirurgia de revascularizatao com transfusao > 5 concentrados de hemácias em 48 horas de pós-operatório ou dre-nagem > 1 mL em 24 horas. Considerou-se como sangramento menor a presenta de hemorragia clinicamente evidente, como queda de hemoglobina entre 3 e 5 g/dL ou hematócrito entre 9 e 15%. In-suficiéncia renal aguda foi definida como aumento da creatinina sérica > 0,3 mg/dL em 48 horas, ou aumento de 1,5 vez o valor basal, ou débito urinário < 0,5 mL/kg/hora durante 6 horas.

Análise estatística

As variáveis categóricas foram descritas como números absolutos e porcentuais e comparadas por meio do teste qui quadrado, ou teste exato de Fisher, quando apropriado. As variáveis contínuas foram apresentadas como média e desvio padrao e comparadas por meio de teste t. As variáveis contínuas com distribuido nao normal foram expressas como mediana e intervalo interquartil, e comparadas por meio do teste de Mann-Whitney. Foi utilizado o programa estatístico Statistical Package for Social Science (SPSS), versao 23.0 para Windows, e a significancia estatística foi definida por p bicaudal < 0,05.

Resultados

No período do estudo, foram incluidas 257 pacientes, sendo 19 (7,4%) em uso de ACO e 238 que nao faziam uso de ACO. Pacientes em uso de ACO eram mais jovens (42,3 ± 6,2 anos vs. 48,4 ± 5,7 anos; p < 0,001), apresentavam menos frequentemente hipertensao arterial e diabetes, e menor circunferencia abdominal (tabela 1). O tempo da chegada ao hospital após o início dos sintomas foi semelhante entre os grupos (4,00

ACO: anticoncepcional oral; IMC: índice de massa corporal; DAC: doenta arterial coronariana; IAM: infarto agudo do miocárdio; ICP: interventao coronária percutanea; CRM: cirurgia de revascularizatao do miocárdio; AVC: acidente vascular cerebral; AAS: ácido acetilsalicílico.

Tabela 2

Características angiográficas e do procedimiento

Tabela 1

Características clínicas

Características ACO Sem ACO Valor de p

n = 19 n = 238

Idade, anos 42,3 ± 6,2 48,4 ± 5,7 < 0,001

Rata branca, n (%) 16 (84,2) 182 (76,5) 0,47

Peso, kg 65,5 ± 9,4 69,7 ± 14,8 0,09

Altura, cm 158,9 ± 5,0 160,0 ± 7,0 0,38

Circunferencia abdominal, cm 84,5 ± 9,8 93,6 ± 15,7 0,02

IMC, kg/m2 25,5 ± 4,6 27,4 ± 6,7 0,22

Hipertensao arterial, n (%) 7 (36,8) 147 (62,0) 0,03

Diabetes melito, n (%) 0 48 (20,3) 0,03

Dislipidemia, n (%) 6 (31,6) 69 (29,1) 0,82

Tabagismo, n (%) 13 (68,4) 169 (71,0) 0,78

História familiar de DAC, n (%) 4 (21,1) 87 (36,7) 0,17

Classe funcional Killip 3 ou 4, n (%) 2 (10,5) 23 (9,6) 0,91

IAM prévio, n (%) 1 (5,3) 35 (14,7) 0,29

ICP prévia, n (%) 1 (5,3) 23 (9,7) 0,49

CRM prévia, n (%) 0 4 (1,7) 0,52

AVC prévio, n (%) 0 9 (3,8) 0,42

Insuficiéncia cardíaca, n (%) 0 9 (3,8) 0,42

Insuficiencia renal crónica, n (%) 1 (5,3) 5 (2,1) 0,50

Depressao, n (%) 5 (26,3) 60 (25,2) 0,60

Tratamento crónico com AAS, n (%) 1 (5,3) 35 (14,7) 0,29

Fratao de ejetao no ecocardiograma, % 62 ± 12 54 ± 15 0,41

Delta T, horas 4,00 [1,25-6,86] 4,50 [2,50-7,64] 0,54

Tempo porta-balao, horas 1,41 [0,58-1,73] 1,16 [0,91-1,51] 0,02

Características ACO n = 19 Sem ACO n = 238 Valor de p

Acesso femoral, n (%) 13 (68,4) 139 (58,4) 0,59

Introdutor 6 F, n (%) 16 (84,2) 224 (94,1) 0,12

Acometimento trivascular, n (%) 1 (5,3) 25 (10,5) 0,45

Lesao de TCE, n (%) 0 6(2,5) 0,65

FE na ventriculografia, % 60,0 ± 0,0 51,0 ± 15,2 0,41

Lesao em bifurcado, n (%) 3 (15,8) 32 (13,4) 0,62

Trombo, n (%) 12 (63,2) 136 (57,1) 0,61

Calcificado, n (%) 2 (10,5) 13 (5,5) 0,44

Pré-dilata^ao, n (%) 8 (42,1) 132 (55,5) 0,36

Tromboaspira^ao, n (%) 8 (52,6) 61 (25,6) 0,04

Implante de stent, n (%) 14 (73,6) 207 (86,9) 0,22

Pós-dilata^ao, n (%) 5 (26,3) 61(25,6) 0,95

Kissing-balloon, n (%) 0 9 (3,8) 0,68

Glicoproteína IIb/IIIa, n (%) 8 (42,1) 65 (27,3) 0,17

Clopidogrel 600 mg, n (%) 16 (84,2) 206 (86,6) 0,55

BIA, n (%) 2 (10,5) 10 (4,2) 0,42

Marca-passo, n (%) 0 7 (2,9) 0,69

Diámetro de referencia, mm 3,27 ± 0,42 3,19 ± 1,80 0,87

Diámetro do stent, mm 3,27 ± 0,38 3,06 ± 0,51 0,13

Comprimento do stent, mm 19,5 ± 3,3 19,9 ± 6,5 0,78

Estenose, %

Pré 95 ± 12 97 ± 8 0,58

Pós 5,9 ± 24,3 2,6 ± 13,3 0,80

Fluxo coronário, n (%)

TIMI 0 pré 12 (63,2) 155 (65,1) 0,98

TIMI 3 pós 16 (84,2) 202 (84,9) 0,81

Perfusao miocárdica, n (%)

Blush 0 pré 14 (73,7) 168 (70,6) 0,74

Blush 3 pós 10 (52,6) 164 (68,9) 0,33

ACO: anticoncepcional oral; TCE: tronco da coronária esquerda; FE: fra^ao de eje^ao: BIA: balao intra-aórtico; TIMI: Thrombolysis in Myocardial Infarction.

[1,25 a 6,86] horas vs. 4,50 [2,50 a 7,64] horas; p = 0,54), mas o tempo porta-balao foi maior nas pacientes em uso de ACO (1,41 [0,58 a 1,73] hora vs. 1,16 [0,91 a 1,51] hora; p = 0,02).

Em relatao as características angiográficas e do procedimento, os grupos foram semelhantes na maioria das características (tabela 2). O acesso femoral foi o mais frequentemente utilizado

(68,4% vs. 58,4%; p = 0,59), assim como o introdutor 6 F (84,2% vs. 94,1%; p = 0,12). A minoria das pacientes apresentou acometimen-to trivascular (5,3% vs. 10,5%; p = 0,45) e a fratao de ejetao do ventrículo esquerdo preservada (60,0 ± 0,0% vs. 51,0 ± 15,2%; p = 0,41). Os vasos tratados mostraram diámetro de referéncia de 3,27 ± 0,42 mm vs. 3,19 ± 1,80 mm (p = 0,87), porcentual de estenose de

95 ± 12% vs. 97 ± 8% (p = 0,58) e fluxo Thrombolysis in Myocardial Infarction (TIMI) 0 em 63,2% vs. 65,1% (p = 0,98). Trombo visível foi detectado em 63,2% vs. 57,1% (p = 0,61) dos casos e tromboaspiragao foi realizada mais frequentemente no grupo das mulheres usuárias de ACO (52,6% vs. 25,6%; p = 0,04). O fluxo TIMI 3 pós foi obtido em 84,2% vs. 84,9% (p = 0,81).

A tabela 3 compara as características laboratoriais entre os grupos. As mulheres em uso de ACO tinham valores mais altos de proteína C-reativa e fibrinogenio.

Na tabela 4 sao apresentados os desfechos clínicos. Na fase hos-pitalar, nao ocorreram diferengas em relagao aos ECVM ou a seus componentes isolados, apenas sangramento menor mais elevado nas pacientes que estavam em uso de ACO. No acompanhamento de até 2 anos, nao ocorreu nenhum evento clínico após a alta no grupo em uso de ACO, com excegao de único caso de trombose de stent muito tardia. Já o outro grupo teve uma ocorrencia cumulativa de eventos, o que resultou em tendencia a maior número de ECVM (0% vs. 15,2%; p = 0,08).

Discussao

Pacientes em uso de ACO encaminhadas a ICP primária mostra-ram perfil clínico menos grave do que mulheres em idade reproduti-va que nao utilizam ACO, mas apresentaram marcadores da atividade inflamatória e trombogénica mais elevados. Foram submetidas a

reperfusao miocárdica mais tardiamente e necessitaram de maior número de procedimentos de tromboaspiragao. Após o evento índice, tenderam a nao apresentar novos desfechos aterotrombóticos em até 2 anos de acompanhamento.

A média de idade menor e um menor número de comorbidades das mulheres em uso de ACO sao semelhantes aos descritos em estudos prévios e poderiam ser explicados por diferengas na fisio-patologia do IAM nos dois grupos. Nas mulheres usuárias de ACO, a influencia da trombose seria maior, enquanto que, naquelas que nao estavam em uso de ACO, a evolugao natural da aterosclerose com ruptura e/ou erosao de placa aterosclerótica, associada a maior risco cardiovascular por múltiplos fatores de risco, teria um papel preponderante.19

Recentemente, Karabay et al.10 avaliaram mulheres submetidas a ICP primária em uso de ACO de quarta geragao, demonstrando maior carga trombótica, menor incidencia de fluxo final TIMI 3 e mais frequentemente trombose multiarterial. Em nosso estudo, a frequéncia de trombo angiograficamente visível nos dois grupos nao foi estatisticamente diferente, mas nao utilizamos nenhum escore dedicado para avaliagao da carga trombótica. Por outro lado, observamos diferenga significativa no uso de tromboaspiragao, que foi duas vezes maior nas mulheres em uso de ACO, o que, por sua vez, poderia sugerir que o critério empre-gado para definir trombo nao foi sensível o suficiente para detectar uma diferenga significativa. A observagao de proteína C-reativa elevada nas mulheres em uso de ACO sugere aumento

Tabela 3

Características laboratoriais

Características ACO Sem ACO Valor de p

n = 19 n = 238

Colesterol total, mg/dL 235,7 ± 80,0 212,0 ± 69,5 0,22

Colesterol HDL, mg/dL 45,0 ± 12,3 42,5 ± 11,5 0,44

Triglicérides, mg/dL 176 [68-236] 122 [81-170] 0,27

Creatinina, mg/dL 0,72 ± 0,19 0,82 ± 0,95 0,66

Glicose, mg/dL 145,2 ± 63,7 172,8 ± 85,0 0,22

CK, U/L 240 [49-432] 193 [76-736] 0,48

CK-MB, ng/mL 16 [5-52] 18 [8-60] 0,21

Troponina ultrassensível, pg/mL 401 [97-5.727] 299 [64-2.019] 0,51

Proteina C-reativa, mg/dL 1,61 [0,65-3,44] 0,55 [0,26-1,28] 0,03

Fibrinogenio, mg/dL 317,2 ± 107,2 250,4 ± 88,9 0,03

Características ACO Sem ACO Valor de p

n = 19 n = 238

Hospitalares

ECVM, n (%) 0 17 (7,4) 0,62

Óbito, n (%) 0 15 (6,6) > 0,99

IAM recorrente, n (%) 0 3 (1,3) > 0,99

AVC isquemico, n (%) 0 0 NA

Trombose de stent, n (%) 0 3 (1,3) > 0,99

Sangramento maior, n (%) 0 3 (1,3) > 0,99

Sangramento menor, n (%) 3 (15,8) 9 (3,8) 0,049

IRA, n (%) 1 (5,3) 7 (3,0) 0,46

ECVM, n (%) 0 28 (12,2) 0,24

Óbito, n (%) 0 19 (8,3) 0,38

IAM recorrente, n (%) 0 7 (2,8) > 0,99

AVC isquemico, n (%) 0 1 (0,5) > 0,99

Trombose de stent, n (%) 0 5 (2,2) > 0,99

2 anos

ECVM, n (%) 0 35 (15,2) 0,08

Óbito, n (%) 0 21 (9,2) 0,38

IAM recorrente, n (%) 0 8 (3,8) > 0,99

AVC isquemico, n (%) 0 2 (0,9) > 0,99

Trombose de stent, n (%) 1 (5,3) 6 (2,8) 0,42

ACO: anticoncepcional oral; HDL: lipoproteína de alta densidade; CK: creatinina quinase; CK-MB: isoenzima MB da creatina quinase.

Tabela 4

Dados clínicos

ACO: anticoncepcional oral; ECVM: eventos cardiovasculares maiores; IAM: infarto agudo do miocárdio; AVC: acidente vascular cerebral; NA: nao aplicável; IRA: insuficiencia renal aguda.

no perfil inflamatório destas pacientes e já tinha sido demonstrado no estudo de Zakharova et al.11

O uso de ACO tem sido realizado na prática clínica para o pla-nejamento familiar há mais de 60 anos. Desde entao, grandes avantos tém sido feitos nas optoes terapéuticas, doses e seguran-ta das formulatoes utilizadas.12 No entanto, mulheres em situa-toes clínicas especiais e/ou na presenta de comorbidades necessitam de atentao em relatao ao uso de contraceptivos hormonais. Em nosso estudo, dentre as mulheres com IAM usuárias de ACO, 68,4% eram tabagistas, 36,8% hipertensas e 5,3% apresen-tavam IAM prévio - conditoes clínicas que classificam o uso de ACO na categoria 3 (riscos superam os benefícios) ou 4 (o uso é inaceitável), conforme critérios de elegibilidade para uso de métodos contraceptivos da Organizatao Mundial da Saúde.13 Dessa forma, nossos dados refortam a importancia da avaliatao crite-riosa e do reconhecimento dos fatores de risco cardiovascular na escolha e prescritao dos ACO.

Adicionalmente, a provável suspensao desses fármacos, após o episódio coronário agudo, contribuiu para que praticamente nao ocorressem outros eventos aterotrombóticos em até 2 anos de acom-panhamento, o que nao aconteceu no grupo oposto, com perfil de risco cardiovascular mais grave e ocorréncia cumulativa de novos desfechos, que resultou em maior número de ECVM.

Em nosso estudo, nao existiam informatoes disponíveis sobre a formulatao do contraceptivo oral, dose ou tipo de estrogénio ou progestagénio que as pacientes utilizavam, o que pode ser considerado uma limitatao desta análise. Os dados foram coleta-dos prospectivamente por uma equipe de pesquisadores dedicados, mas a decisao de analisar e comparar mulheres em uso ou nao de ACO foi realizada retrospectivamente e via prontuário. Análises mais acuradas da carga trombótica por escores dedicados ou tomografia de coeréncia óptica nao estao disponíveis e também podem ser consideradas limitatoes da presente análise. O número de pacientes em uso de ACO incluído neste estudo foi pequeno, apesar de poder ser comparado favoravelmente com vários relatos da literatura.10

Conclusoes

Mulheres usuárias de anticoncepcionais orais submetidas a in-terventao coronária percutanea primária foram mais jovens e com menos fatores de risco tradicionais para doenta arterial co-ronariana do que aquelas que nao usavam anticoncepcionais orais, além de apresentarem fibrinogénio e proteína C-reativa séricos mais elevados. Foram submetidas a reperfusao miocárdica mais tardiamente e necessitaram maior número de procedimen-tos de tromboaspiratao. Após o evento índice, tenderam a nao apresentar desfechos aterotrombóticos em até 2 anos de acompa-nhamento. Estudos com maior número de pacientes sao necessá-rios para confirmar estes resultados.

Agradecimentos

Agradecemos aos colegas André Manica, Alexandre Azmus, Carlos Roberto Cardoso, Cristiano Oliveira Cardoso, Cláudio Antonio Ramos de Moraes, Cláudio Vasquez de Moraes, Flavio Celso Leboute, Henrique Basso Gomes, Julio Teixeira, La Hore Correa Rodrigues, Mauro Regis Silva Moura e Rogério Sarmento Leite pela participatao na executao dos procedimentos de interventao coronária percutanea primária.

Fonte de financiamento

Nao há.

Conflitos de interesse

Os autores declaram nao haver conflitos de interesse.

Referencias

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