Scholarly article on topic 'Diferenças de gênero nos resultados da intervenção coronariana percutânea primária em pacientes com infarto do miocárdio com elevação de ST'

Diferenças de gênero nos resultados da intervenção coronariana percutânea primária em pacientes com infarto do miocárdio com elevação de ST Academic research paper on "Educational sciences"

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{"Infarto do miocárdio" / "Intervenção coronária percutânea" / Sexo / Mortalidade / "Myocardial infarction" / "Percutaneous coronary intervention" / Gender / Mortality}

Abstract of research paper on Educational sciences, author of scientific article — Roberto Ramos Barbosa, Valmin Ramos da Silva, Renato Giestas Serpa, Felipe Bortot Cesar, Vinicius Fraga Mauro, et al.

Resumo Introdução Relata‐se maior mortalidade no sexo feminino no infarto do miocárdio com supradesnivelamento de ST (IAMCST). Este estudo teve como objetivo avaliar os perfis clínico e angiográfico, e os resultados de pacientes submetidos à intervenção coronária percutânea primária (ICPp), de acordo com o sexo. Métodos Estudo retrospectivo que incluiu pacientes com IAMCST submetidos à ICPp entre março de 2012 e maio de 2013, em um serviço de referência regional, acompanhados desde a admissão até a alta hospitalar ou o óbito. Resultados Foram submetidos à ICPp 208 pacientes, sendo 51 (24,5%) mulheres e 157 (75,5%) homens. Observou‐se diferença significativa para idade (65,5 ± 14,0 vs. 58,8 ± 11,0 anos; p = 0,001), diabetes (43,1% vs. 24,8%; p = 0,02), classificação de Killip‐Kimbal III/IV (17,6% vs. 7,0%; p = 0,02), tempo dor‐porta (181 ± 154 minutos vs. 125 ± 103 minutos; p = 0,004) e tempo porta‐balão (181 ± 133 minutos vs. 87 ± 67 minutos; p = 0,001). O sucesso do procedimento foi semelhante (92,1% vs. 91,1%; p = 0,22). A mortalidade hospitalar foi maior para o sexo feminino (23,5% vs. 8,9%; p = 0,006). Análise multivariada identificou como preditores independentes de mortalidade a idade ≥ 70 anos (odds ratio OR = 2,75; intervalo de confiança de 95% IC 95% 1,81‐3,64; p = 0,029) e a classe Killip‐Kimbal III/IV (OR = 2,45; IC 95% 1,49‐4,02; p = 0,002). Conclusões Mulheres com IAMCST apresentaram perfil clínico mais grave e tempos dor‐porta e porta‐balão mais prolongados que homens. O sexo feminino apresentou maior mortalidade hospitalar após ICPp, porém o sexo feminino não foi identificado como preditor independente de óbito. Abstract Background Higher mortality is reported among women with ST‐elevation myocardial infarction (STEMI). This study aimed to evaluate the clinical and angiographic profiles, as well as outcomes of patients submitted to primary percutaneous coronary intervention (pPCI), according to gender. Methods Retrospective study that included patients with STEMI undergoing pPCI between March 2012 and May 2013 at a regional referral center, followed from admission until hospital discharge or death. Results 208 patients underwent pPCI, of whom 51 (24.5%) were women and 157 (75.5%) men. A significant difference was observed for age (65.5 ± 14.0 vs. 58.8 ± 11.0 years; p = 0.001), diabetes (43.1% vs. 24.8%; p = 0.02), Killip‐Kimball class III/IV (7.0% vs. 17.6%; p = 0.02), pain‐to‐door time (181 ± 154minutes vs. 125 ± 103minutes; p = 0.004), and door‐to‐balloon time (181 ± 87 vs. 133minutes ± 67minutes; p = 0.001). The success of the procedure was similar (92.1% vs. 91.1%; p = 0.22). In‐hospital mortality was higher for females (23.5% vs. 8.9%; p = 0.006). Multivariate analysis identified age ≥ 70 years (odds ratio ‐ OR = 2.75; 95% confidence interval ‐ 95% CI: 1.81–3.64; p = 0.029) and Killip‐Kimball class III/IV (OR = 2.45; 95% CI: 1.49–4.02; p = 0.002) as independent predictors of mortality. Conclusions Women with STEMI had a more severe clinical profile and longer pain‐to‐door and door‐to‐balloon times than men. Females had higher in‐hospital mortality after pPCI, but the female gender was not identified as an independent predictor of death.

Academic research paper on topic "Diferenças de gênero nos resultados da intervenção coronariana percutânea primária em pacientes com infarto do miocárdio com elevação de ST"

Rev Bras Cardiol Invasiva. 2015;23(2):96-101

Artigo Original

Diferengas de género nos resultados da intervengo coronariana percutanea primária em pacientes com infarto do miocárdio com elevagao de ST

Roberto Ramos Barbosaab*, Valmin Ramos da Silvab, Renato Giestas Serpaa, Felipe Bortot Cesara, Vinicius Fraga Mauroa, Denis Moulin dos Reis Bayerla, Walkimar Ururay Gloria Velosoa, Roberto de Almeida Cesara, Pedro Abilio Ribeiro Resecka

a Hospital Evangélico de Vila Velha, Vila Velha, ES, Brasil b Escola Superior de Ciencias da Santa Casa de Misericordia, Vitoria, ES, Brasil

INFORMALES SOBRE O ARTIGO RESUMO

Introdufáo: Relata-se maior mortalidade no sexo feminino no infarto do miocárdio com supradesnivelamento de ST (IAMCST). Este estudo teve como objetivo avaliar os perfis clínico e angiográfico, e os resultados de pacientes submetidos a intervengo coronária percutanea primária (ICPp), de acordo com o sexo. Métodos: Estudo retrospectivo que incluiu pacientes com IAMCST submetidos a ICPp entre margo de 2012 e maio de 2013, em um servigo de referencia regional, acompanhados desde a admissao até a alta hospitalar ou o óbito.

Resultados: Foram submetidos a ICPp 208 pacientes, sendo 51 (24,5%) mulheres e 157 (75,5%) homens. Observou-se diferenga significativa para idade (65,5 ± 14,0 vs. 58,8 ± 11,0 anos; p = 0,001), diabetes (43,1% vs. 24,8%; p = 0,02), classificagao de Killip-Kimbal III/IV (17,6% vs. 7,0%; p = 0,02), tempo dor-porta (181 ± 154 minutos vs. 125 ± 103 minutos; p = 0,004) e tempo porta-balao (181 ± 133 minutos vs. 87 ± 67 minutos; p = 0,001). O sucesso do procedimento foi semelhante (92,1% vs. 91,1%; p = 0,22). A mortalidade hospitalar foi maior para o sexo feminino (23,5% vs. 8,9%; p = 0,006). Análise multivariada identificou como preditores independentes de mortalidade a idade > 70 anos (odds ratio - OR = 2,75; intervalo de confianga de 95% - IC 95% 1,81-3,64; p = 0,029) e a classe Killip-Kimbal III/IV (OR = 2,45; IC 95% 1,49-4,02; p = 0,002). Conclusoes: Mulheres com IAMCST apresentaram perfil clínico mais grave e tempos dor-porta e porta-balao mais prolongados que homens. O sexo feminino apresentou maior mortalidade hospitalar após ICPp, porém o sexo feminino nao foi identificado como preditor independente de óbito.

© 2015 Sociedade Brasileira de Hemodinamica e Cardiología Intervencionista. Publicado por Elsevier Editora Ltda.

Este é um artigo Open Access sob a licenga de CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/Iicenses/by-nc-nd/4.0/).

Gender differences in primary percutaneous coronary intervention outcomes in patients with ST-elevation myocardial infarction

ABSTRACT

Background: Higher mortality is reported among women with ST-elevation myocardial infarction (STEMI). This study aimed to evaluate the clinical and angiographic profiles, as well as outcomes of patients submitted to primary percutaneous coronary intervention (pPCI), according to gender. Methods: Retrospective study that included patients with STEMI undergoing pPCI between March 2012 and May 2013 at a regional referral center, followed from admission until hospital discharge or death. Results: 208 patients underwent pPCI, of whom 51 (24.5%) were women and 157 (75.5%) men. A significant difference was observed for age (65.5 ± 14.0 vs. 58.8 ± 11.0 years; p = 0.001), diabetes (43.1% vs. 24.8%; p = 0.02), Killip-Kimball class III/IV (7.0% vs. 17.6%; p = 0.02), pain-to-door time (181 ± 154 minutes vs. 125 ± 103 minutes; p = 0.004), and door-to-balloon time (181 ± 87 vs. 133 minutes ± 67 minutes; p = 0.001). The success of the procedure was similar (92.1% vs. 91.1%; p = 0.22). In-hospital mortality was higher for females (23.5% vs. 8.9%; p = 0.006). Multivariate analysis identified age > 70 years (odds ratio - OR = 2.75; 95% confidence interval - 95% CI: 1.81-3.64; p = 0.029) and Killip-Kimball class III/IV (OR = 2.45; 95% CI: 1.49-4.02; p = 0.002) as independent predictors of mortality.

* Autor para correspondencia: Rua Venus, s/n, Alecrim, CEP: 29118-060, Vila Velha, ES, Brasil. E-mail: roberto.rb@cardioI.br (R.R. Barbosa).

A revisäo por pares é da responsabilidade Sociedade Brasileira de Hemodinamica e Cardiologia Intervencionista. http://dx.doi.org/10.1016/j.rbci.2015.12.006

0104-1843/© 2015 Sociedade Brasileira de Hemodinamica e Cardiologia Intervencionista. Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este é um artigo Open Access sob a licenga de CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/Iicenses/by-nc-nd/4.0/).

Histórico do artigo:

Recebido em 31 de dezembro de 2014

Aceito em 23 de mar^o de 2015

Palavras-chave: Infarto do miocárdio Intervençâo coronária percutânea Sexo

Mortalidade

Keywords:

Myocardial infarction Percutaneous coronary intervention Gender MortaIity

Conclusions: Women with STEMI had a more severe clinical profile and longer pain-to-door and door-to-balloon times than men. Females had higher in-hospital mortality after pPCI, but the female gender was not identified as an independent predictor of death.

© 2015 Sociedade Brasileira de Hemodinamica e Cardiología Intervencionista. Published by Elsevier Editora Ltda. This is an open access article under the CC BY-NC-ND license (http://creativecommons.org/hcenses/by-nc-nd/4.0/).

Introdujo

O infarto agudo do miocárdio (1AM) é uma das principáis causas de morte no Brasil e requer protocolos bem estabelecidos para seu manuseio, além de capacitado humana e tecnológica, o que demanda recursos financeiros cada vez mais elevados.1

Há evidencias robustas, a partir de ensaios clínicos randomiza-dos, de que a intervengo coronária percutanea primária (ICPp) está associada a menor mortalidade, menores taxas de 1AM recorrente e hemorragia intracraniana, comparada a terapia fibrinolítica.2 Sendo possível a realizado de ICPp, esta é recomendada para todos os pacientes com 1AM com supradesnivelamento de ST (1AMCST) que possam ser submetidos ao procedimento dentro de 90 minutos do primeiro contato médico, por profissionais habilitados, desde que o quadro tenha se iniciado dentro das últimas 12 horas.

O 1AMCST exige reconhecimento imediato da equipe médica e atendimento ágil, envolvendo transferencia inter-hospitalar em parte dos casos e acionamento de servidos específicos.3 Em diversos pontos da assistencia, existem barreiras de acessibilidade, que po-dem ser de múltiplas naturezas, tendo, geralmente, causas clínicas, ambientais, sociais, cognitivas e/ou emocionais, e que podem estar intimamente relacionadas ao genero. O conjunto desses fatores pode interferir no processo de julgamento e na decisao médica, bem como na chegada a um servido ou local de atendimento.4

Diversos estudos identificaram comportamentos diferentes do 1AMCST em homens e mulheres. Com frequencia, observa-se, nas mulheres, mortalidade mais elevada, além de características clínicas adversas em maior frequencia do que os homens, como idade mais avanzada, maior prevalencia de fatores de risco cardiovascular e quadro clínico mais grave.5-9 Ainda, maiores tempos de retardo na assistencia a mulheres com 1AMCST tem sido relatados, o que pode influenciar nos resultados, inclusive dos pacientes submeti-dos a ICPp.9

Este estudo teve como objetivo avaliar o perfil clínico-angio-gráfico e os resultados de pacientes submetidos a ICPp, de acordo com o genero, e obter os fatores preditores independentes da mortalidade hospitalar.

Métodos

Desenho e populagao do estudo

Estudo retrospectivo, observacional, unicentrico, de caráter des-critivo e comparativo (por genero), realizado a partir de dados cole-tados em prontuários médicos e de informales obtidas e registradas no Laboratório de Cardiologia Intervencionista.

A amostra foi composta por pacientes consecutivos admitidos com 1AMCST e submetidos a ICPp entre mar^o de 2012 e maio de 2013, num servido de referencia regional, acompanhados desde a admissao até a alta hospitalar ou o óbito. Foram incluídos os pacientes com mais de 18 anos submetidos a ICPp em caráter de urgencia dentro das pri-meiras 12 horas dos sintomas, atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com supradesnivelamento persistente do segmento ST em duas

ou mais derivares contíguas ou um novo bloqueio de ramo esquerdo no eletrocardiograma. Pacientes submetidos a ICP com início dos sintomas há mais de 12 horas foram excluídos, bem como aqueles sem critérios diagnósticos de 1AMCST na avalia^ao conjunta das equipes de cardiologia clínica e intervencionista.

Procedimentos

Todos os casos de 1AMCST assistidos na instituido de referencia tiveram demanda espontanea ou foram transferidos após atendimento inicial e reconhecimento do quadro em outro servido. Os casos que necessitaram de transferencia inter-hospitalar foram conduzidos pelo Servido de Atendimento Móvel de Urgencia (SAMU), conforme preconizado pelo fluxo regulatório da Rede de Urgencia e Emergencia no Estado do Espírito Santo. Nesses casos, o SAMU, contactado pela equipe médica do primeiro servido após o acolhimento do paciente, realizou a regulado, o contato com o servido de referencia e a posterior transferencia do paciente em unida-de móvel apropriada.

Em todos os pacientes, obedeceu-se o caráter emergencial da reali-za^ao do procedimento de ICPp, sendo o paciente conduzido a sala de hemodinamica o mais brevemente possível após comunicado pela equipe do pronto-socorro. Os pacientes receberam dose de ataque de 200 a 300 mg de ácido acetilsalicílico e 300 a 600 mg de clopidogrel, ou 180 mg de ticagrelor. O uso de morfina, nitrato sublingual/endovenoso ou betabloqueador ficava a critério do médico plantonista. Todos receberam heparina nao fracionada na sala de hemodinamica (70 a 100 U/kg). Após o procedimento, a terapia antiplaquetária dupla era mantida sistematicamente em todos os pacientes.

A ICPp foi realizada conforme preconizado pela diretriz brasileira de 1AMCST,10 sendo a via de acesso definida pelo cardiologista intervencionista. Pré e pós-dilata^ao foram realizadas de acordo com o julgamento do operador, bem como a administrado de inibidores de glicoproteína Ilb/IIIa.

Os tempos de isquemia miocárdica foram registrados de forma ro-tineira no servido, bem como os períodos das diversas etapas da assis-tencia médica. Analisamos o tempo dor-balao (intervalo entre o início dos sintomas e a primeira insuflado do balao); tempo dor-porta (intervalo entre o início dos sintomas até a chegada ao primeiro servido de saúde); tempo de transferencia inter-hospitalar (tempo decorrido desde a chegada ao primeiro servido de saúde até o servido de referencia); e o tempo porta-balao (intervalo entre a chegada do paciente no hospital de referencia e a primeira insuflado do balao).

Definigoes e desfechos

O tempo de internado hospitalar foi contabilizado a partir do dia de admissao, considerando-se esse o "dia zero". Na análise do tempo de internado, foram considerados somente os pacientes que recebe-ram alta para domicílio, excluindo-se aqueles que foram a óbito durante o período de hospitalizado.

O desfecho primário do estudo foi a ocorrencia de óbito por qualquer causa no período hospitalar. Os desfechos secundários foram a ocorrencia de trombose de stent provável ou definitiva pelos critérios do Academic Research Consortium,11 sangramentos moderados

ou graves de acordo com os critérios Global Utilization of Streptokinase and Tissue Plasminogen Activator for Occluded Coronary Arteries (GUSTO),12 ou insuficiéncia renal aguda (caracterizada por aumento da creatinina sérica acima de 50% do valor basal ou necessidade de iniciar terapia dialítica).

Análise estatística

As variáveis categóricas foram expressas como frequéncias absolutas e porcentuais, e comparadas por meio do teste do qui quadrado de Pearson, ou o teste exato de Fisher, quando apropriado. As variáveis continuas foram descritas como média e desvio padrao, e comparadas por meio do teste t de Student. Os dados obtidos foram armazenados em planilha do programa Microsoft Office. A análise foi realizada com uso do software Statistical Package for the Social Science (SPSS), versao 20.0 para Windows, sendo considerados estatistica-mente significativos valores de p < 0,05.

Os preditores independentes de mortalidade hospitalar foram obtidos pela análise multivariada por regressao logística binária. No modelo, as variáveis contínuas foram dicotomizadas, sendo utilizados como covariáveis o sexo feminino, a idade > 70 anos, hipertensao arterial, diabetes melito, tabagismo, insuficiéncia renal crónica, classe Killip-Kimbal III ou IV a admissao e tempo dor-balao > 360 minutos, enquanto a variável dependente foi a ocorréncia de óbito na fase hospitalar.

Resultados

O sexo feminino mostrou maior prevaléncia de diabetes melito (43,1% vs. 24,8%; p = 0,02) e maior proporgao de pacientes com a clas-sificagao Killip-Kimbal III/IV (tabela 1).

Dos 208 pacientes analisados, 155 (74,5%) foram atendidos inicial-mente em outro servigo, sendo transferidos para a realizagao da ICPp. Houve maior proporgao de transferéncias inter-hospitalares entre os pacientes do sexo masculino (60,8% vs. 79,0%; p = 0,02). No entanto, observamos maior atraso para pacientes do sexo feminino nos tempos dor-porta (181 ± 154 minutos vs. 125 ± 103 minutos; p = 0,004) e por-ta-balao (181 ± 133 minuto vs. 87 ± 67 minuto; p = 0,001).

Tabela 1

Características clínicas

Na amostra total, a via de acesso utilizada para a ICPp foi a femoral em 195 procedimentos (93,7%), enquanto a via radial foi utilizada nos demais. Foram implantados 249 stents coronários, sendo todos stents nao farmacológicos, com média de 1,2 ± 0,5 stent por paciente. A artéria descendente anterior foi o vaso mais tratado em ambos os grupos, e as características de complexidade das lesoes tratadas nao foram diferentes entre os generos (tabela 2). Pré (84,3% vs. 78,3%; p = 0,35) e pós-dilatagao (19,6% vs. 26,%; p = 0,64) foram utilizadas igualmente entre os grupos, e um agente inibidor de glicoproteína IIb/IIIa foi administrado mais frequentemente nas mulheres (47,0% vs. 19,1%; p = 0,04). Ocorreu disturbio de fluxo (slow-flow ou no-re-flow) em 27,5% das mulheres e em 20,4% dos homens (p = 0,24). A taxa de sucesso do procedimento nao apresentou diferenga na com-paragao entre os generos (92,1% vs. 91,1%; p = 0,22).

A mortalidade hospitalar da amostra total foi de 12,5%, e o tempo médio de hospitalizagao foi de 9,1 ± 8,2 dias. Observou-se mortalidade mais elevada nos pacientes do sexo feminino (23,5% vs. 8,9%; p = 0,02). Nenhum caso de acidente vascular encefálico foi diagnosticado entre os pacientes. A trombose de stent definitiva/provável (2,0% vs. 2,0%; p > 0,99) e os sangramentos moderados/graves (9,8% vs. 5,1%; p = 0,22) nao foram diferentes entre os grupos (tabela 3). Na análise multivariada, foram identificados como fatores independen-temente associados a mortalidade a idade e as classes Killip-Kimbal III/IV. O sexo feminino nao se mostrou um preditor independente de óbito hospitalar (tabela 4).

Discussao

Na década de 1990, o projeto Multinational MONItoring of Trends and Determinants in CArdiovascular Disease (MONICA), da Organiza-gao Mundial da Saúde, realizou importantes alertas a comunidade médica para o diferente comportamento e a condugao das doengas cardiovasculares nas mulheres. No estudo, foram demonstradas dife-rengas entre os géneros na apresentagao e condugao do IAM. Mulhe-res apresentaram quadro clínico mais grave que os homens (classe Killip-Kimbal III/IV: 11,7% vs. 7,3%; p = 0,003); levaram mais tempo para chegar ao hospital (< 6 horas: 47% vs. 52%; 6 a 12 horas: 11% vs. 11%; 12 a 24 horas: 7% vs. 7%; > 24 horas: 35% vs. 30%; p < 0,001); e re-ceberam menos intervengoes terapéuticas (administragao de agen-

Variáveis Género Valor de p

Feminino Masculino

(n = 51) (n=157)

Idade, anos 65,5 ± 14,0 58,8 ± 11,0 0,001

Faixa etária (anos), n (%) 0,02

< 49 9 (17,6) 30 (19,1)

50-59 8 (15,7) 58 (36,9)

60-69 13 (25,5) 41 (26,1)

> 70 21 (41,2) 28 (17,8)

Hipertensao arterial, n (%) 40 (78,4) 110 (70,1) 0,24

Diabetes melito, n (%) 22 (43,1) 39 (24,8) 0,02

Dislipidemia, n (%) 20 (39,2) 51 (32,5) 0,37

Tabagismo, n (%) 16 (31,4) 61 (38,8) 0,33

Insuficiencia renal crónica, n (%) 8 (15,7) 18 (11,5) 0,42

ICP prévia, n (%) 1 (2,0) 14 (8,9) 0,12

CRM prévia, n (%) 0 5 (3,2) 0,24

Classe Killip-Kimbal, n (%) I 36 (70,6) 134 (85,3) 0,03

II 6 (11,8) 12 (7,6)

III 3 (5,9) 1 (0,6)

IV 6 (11,8) 10 (6,4)

Tempos de retardo, minutos

Dor-porta 181±154 125±103 0,004

Transferencia inter-hospitalar 284 ± 206 272 ± 217 0,73

Porta-balao 181 ± 133 87 ± 67 0,001

Dor-balao 550 ± 498 438 ± 340 0,07

ICP: intervengao coronária percutanea; CRM: cirurgia de revascularizagao miocárdica.

Tabela 2

Características angiográficas

Variáveis Gênero Valor de p

Feminino (n = 51) Masculino (n = 157)

Vasos tratados, n (%) 0,42

Descendente anterior 25 (49,0) 64 (40,8)

Circunflexa 9 (17,6) 31 (19,7)

Coronária direita 17 (33,3) 59 (37,6)

Tronco de coronária esquerda 1 (2,0) 2 (1,3)

Doen^a multiarterial, n (%) 16 (31,4) 40 (25,5) 0,41

Lesao em bifurcado, n (%) 7 (13,7) 19 (12,1) 0,76

Lesao em enxertos de safena, n (%) 1 (2,0) 1 (0,6) 0,37

Uso de IGP Ilb/IIIa, n (%) 24 (47,0) 49 (19,1) 0,04

Pré-diiata^ao, n (%) 43 (84,3) 123 (78,3) 0,35

Pós-diiata^ao, n (%) 15 (19,6) 41 (26,1) 0,64

Diametro nominal dos stents, mm 2,99 i 0,41 3,07 i 0,44 0,88

Comprimento nominal dos stents, mm 21,3 i 6,7 22,5 i 6,5 0,86

Slow/no-reflow, n (%) 14 (27,5) 32 (20,4) 0,24

Sucesso do procedimento, n (%) 47 (92,2) 143 (91,1) 0,29

IGP: inibidor de glicoproteína.

Tabela З

Desfechos clínicos hospitalares

Variáveis Gênero Valor de p

Feminino (n = 51) Masculino (n = 157)

Mortalidade hospitalar, n (%) 12 (23,5) 14 (8,9) 0,02

Trombose de stent definitiva/provável, n (%) 1 (2,0) 3 (2,0) > 0,99

Sangramento moderado ou grave, n (%) 5 (9,8) 8 (5,1) 0,22

Insuficiência renal aguda, n (%) 8 (15,7) 16 (10,2) 0,28

Tempo de internaçao, dias 10,6 i 9 8,6 i 7 0,15

Tabela 4

Preditores de óbito hospitalar após intervençao coronária percutánea primária

Variável Odds Ratio Intervalo de confiança 95% Valor de p

Sexo feminino 1,84 0,88-2,16 0,09

Idade >70 anos 2,75 1,81-3,64 0,03

Hipertensao arterial 1,75 0,12-1,85 0,28

Diabetes melito 2,25 0,30-3,52 0,92

Tabagismo 0,82 0,18-1,08 0,77

Insuficiencia renal crónica 1,65 0,47-5,72 0,24

Classe Killip-Kimbal III ou IV 2,45 1,49-4,02 0,002

Tempo dor-balao >360 minutos 1,26 0,99-1,62 0,31

tes trombolíticos: 42% vs. 58%; p < 0,001). A proporçao de pacientes com idade > 75 anos foi maior nas mulheres em relaçao aos homens (35,1% vs. 17,2%; p < 0,001). Foram admitidos em unidade coronária < 24 horas 56% dos homens e 41% das mulheres com IAM (odds ratio - OR ajustado: 1,40; intervalo de confiança de 95% - IC 95% 1,261,56). A mortalidade hospitalar foi de 16% no sexo masculino e 27% no feminino (OR: 0,83; IC 95% 0,71-0,97).13

Um grande estudo internacional sobre as diferenças entre os gê-neros nas síndromes coronarianas agudas, com a inclusao de mais de 12 mil pacientes, demonstrou que mulheres eram mais velhas que homens na ocasiao do IAMCST (69 vs. 61 anos; p < 0,001) e apresen-tavam taxas significativamente mais altas de hipertensao arterial, diabetes e insuficiência cardíaca prévia. Apresentavam também menores taxas de IAM prévio e menor probabilidade de serem tabagis-tas. As mulheres tiveram mais complicaçoes durante a hospitalizaçao e maior mortalidade em 30 dias (6,0% vs. 4,0%; p < 0,001). Após ajuste para as características basais, a taxa de morte ou reinfarto aos 30 dias foi similar para mulheres e homens (p = 0,47).14

Dados de 4.347 pacientes internados por IAM na França demons-traram maior mortalidade hospitalar em mulheres de 30 a 67 anos, quando comparadas a homens da mesma faixa etária (11% vs. 5%; OR: 2,4; IC 95% 1,4-4,3; p = 0,003), enquanto nao se observou diferen-ça entre homens e mulheres no grupo de idade mais avançada, ou seja, 68 a 89 anos (18% vs. 16%; OR: 1,2; IC 95% 0,9-1,7; p = 0,3). Além do gênero, outro preditor significante de mortalidade hospitalar foi a classificaçao de Killip-Kimbal à admissao.7

Sabe-se que a reduçao do tempo total de isquemia miocárdica até a reperfusao coronária no IAMCST associa-se à reduçao dos desfechos adversos, incluindo a mortalidade.315 No entanto, a realidade brasileira na assistência ao IAM comumente se apresenta com retardos desnecessários e aplicaçao infrequente de terapias comprovada-mente eficazes em tempo hábil.16 Isso gera um grande aumento da morbimortalidade por doenças cardiovasculares, comprometendo grande parte da populaçao economicamente ativa e sobrecarregan-do os recursos financeiros já escassos para a saúde.1

Atualmente, as cidades brasileiras, em geral, nao contam com sistemas efetivos e ágeis para o tratamento do IAM, o que ocasiona re-

tardos significativos para o acesso aos servidos de referencia. Nas metrópoles, grande parte dos pacientes primeiramente buscam atendimento em Unidades Básicas de Saúde, para entao serem transferidos para um servido de referencia e receberem o tratamento ade-quado, inclusive terapia de reperfusao coronária, o que ocasiona aumento substancial do tempo de evolu^ao do IAM. Além disso, au-tomedica^ao e dificuldade de reconhecimento da doen^a prejudi-cam o acesso ao servido de saúde em tempo hábil.13

Sistemas regionais de otimiza^ao de fluxos e assistencia ao IAM sao fortemente recomendados, devendo ser desenvolvidos e aplicados para promover redu^ao dos tempos de retardo e melho-ra dos resultados em todas as subpopula^oes com IAMCST. Os pacientes com maior atraso até o tratamento sao, em geral, mais idosos e apresentam mais comorbidades. Um retardo > 6 horas do início do quadro até a ICPp pode representar um aumento de mor-talidade de quase duas vezes em rela^ao aquela observada quan-do o retardo é < 6 horas.17

Muitas das barreiras de acessibilidade, de fato pouco estudadas no contexto do IAMCST, acentuam-se no sexo feminino. Características clínicas e culturais, como quadro clínico atípico, atribuido dos sintomas a outros agravos e retardo na busca por assistencia médica, levam a associa^ao entre sexo feminino e retardo no tratamento do IAM.4 O tempo porta-balao no IAMCST com frequencia se mostra significativamente maior em mulheres, quando comparadas aos ho-mens, como demonstrado por Correia et al. (190 ± 86 minutos vs. 136 ± 49 minutos; p = 0,01).18

Na populado brasileira, o sexo feminino foi reconhecido como uma variável independente relacionada a mortalidade hospitalar (sexo masculino com 9,9% vs. sexo feminino com 23%; OR: 0,35; IC 95% 0,19-0,67; p = 0,001). A idade e a classe Killip-Kimbal também se confirmaram como variáveis independentemente associadas ao aumento do risco de óbito no IAMCST.6

Observou-se uma alta complexidade clínica dos pacientes in-cluídos no presente estudo, com elevada prevalencia de fatores de risco cardiovascular. Em adi^ao a esse perfil de risco, houve grande retardo nas diversas etapas da assistencia médica, até a reperfusao coronária pela ICPp. Com isso, ocorreu elevada mortalidade na fase hospitalar do IAMCST, o que reflete as carencias de todo o sistema de aten^ao ao IAMCST no SUS, desde a prevengo primá-ria nos cuidados básicos até os procedimentos cardiológicos de alta complexidade.

Apesar de o grupo feminino ter apresentado mortalidade hospitalar expressivamente superior a do grupo masculino, o sexo femini-no nao se mostrou um preditor independente de óbito neste estudo. A pequena amostra incluída pode justificar essa ausencia de associa-^ao independente. Portanto, a alta mortalidade nas mulheres se de-veu, majoritariamente, a gravidade clínica significativamente maior, a idade mais avanzada e ao maior retardo para o tratamento neste grupo, e nao se deu em fun^ao do sexo isoladamente.

Além da condi^ao de genero, outros fatores foram avaliados para a predi^ao de óbito hospitalar após ICPp na populado estu-dada. Dentre eles, observou-se que a classe Killip-Kimbal III ou IV a admissao hospitalar e a idade > 70 anos se associaram de forma independente ao evento. Resultado semelhante foi encontrado para essas variáveis em estudos internacionais, demonstrando o elevado risco de óbito no IAMCST em casos de idade avanzada e alta gravidade clínica em diferentes populares ao

redor do mundo.7,8

Logo, o sexo feminino deve ser lembrado quanto as suas peculiaridades na presenta de IAM ou outras doen^as cardiovasculares, devendo, inclusive, ser destacado nas políticas públicas de saúde e diretrizes societárias, assim como outras populares que se encon-tram sob elevado risco cardiovascular e que apresentam importante crescimento, como os idosos, os portadores de doen^a renal crónica e de diabetes melito.

Limitagoes do estudo

Os pacientes avaliados no presente estudo corresponderam so-mente aos que receberam a ICPp como terapia de reperfusao coroná-ria. Um contingente de pacientes que nao receberam ICPp ou terapia trombolítica nao foi contabilizado e foi, portanto, excluído deste estudo, o que demonstra que o problema encontrado ilustra somente uma parcela de pacientes de fato tratada, e que a defasagem do sistema é, certamente, ainda maior.

O tamanho amostral restrito limita os resultados encontrados, e a amostragem por conveniencia representa apenas a populado de pacientes assistidos no servido onde se deu a pesquisa no período de tempo determinado, nao podendo representar outras populares.

Podem ter ocorrido vieses de informado relacionados aos tempos avaliados, por imprecisoes sobre o horário de início dos sintomas por parte de pacientes e familiares. Tais desvios sao inerentes a informa^ao coletada e foram aventados previamente em uma ampla análise de resultados de ICPp e de tempo dor-balao.19 No entanto, isso reflete a veracidade das dificuldades encontradas no mundo real da assistencia ao IAM. A aferi^ao do tempo dor-balao utilizada no estudo, apesar de sujeita a esses vieses, deve ser valorizada, pois reflete o resultado de a^oes conjuntas em diversos pontos críticos da assistencia ao IAMCST, incluindo o reconhecimento de sintomas por parte do paciente, a acessibilidade aos servidos de saúde e a qualida-de do atendimento pré-hospitalar de urgencia.

Conclusoes

Pacientes do sexo feminino com infarto com supradesnivelamen-to do segmento ST apresentaram perfil clínico mais grave e tempos dor-porta e porta-balao mais prolongados que os pacientes do sexo masculino. As mulheres apresentaram maior mortalidade hospitalar após intervengo coronária percutanea primária, porém o sexo fe-minino nao foi identificado como preditor independente de óbito.

Fonte de financiamento

Nao há.

Conflitos de interesse

Os autores declaram nao haver conflitos de interesse.

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