Scholarly article on topic 'História dos megaeventos esportivos no Brasil'

História dos megaeventos esportivos no Brasil Academic research paper on "Educational sciences"

CC BY-NC-ND
0
0
Share paper
OECD Field of science
Keywords
{}

Academic research paper on topic "História dos megaeventos esportivos no Brasil"

||1]||IPPIW^M AIIIIILE IN PRESS

Rev Bras Ciênc Esporte. 2015;xxx(xx):xxx-xxx

Revista Brasileira de

CIÊNCIAS DO ESPORTE

www.rbceonline.org.br

RESENHA

História dos megaeventos esportivos no Brasil*

History of mega-sporting events in Brazil

Historia de los megaeventos deportivos en Brasil

O anúncio da realizacao de megaeventos esportivos no Brasil deflagrou uma agenda de acoes dedicada aos esportes, incluindo aí impulsos para investigacao de novos aspectos desse fenómeno. Pesquisas sobre políticas públicas foram apenas os mais obviamente relacionados a esse cenário. Para além desse assunto, uma série de outros tópicos tem recebido ou pode receber em breve incentivos no mesmo sentido. Seria o caso, por exemplo, da história dos megaeventos esportivos, uma possibilidade pouco explorada ainda.

Nesse cenário, o livro organizado por Joao Manuel C. Malaia Santos e Victor Andrade de Melo é oportuno. Reu-niao de várias pesquisas históricas, de diferentes autores, o livro 1922: comemoracoes esportivas do centenário (Santos e Melo, 2012) aborda, de vários ángulos, as atividades esportivas realizadas durante as comemoracoes do centenário da Independencia do Brasil, sediada no Rio de Janeiro. Embora a expressao nao existisse ainda, pode-se dizer, assim mesmo, salvaguardando-se, claro, as devidas proporcoes, que as comemoraccoes do centenário foram um autentico megae-vento.

Para os padroes da época, tratou-se de um esforco organizacional extraordinário. Por ocasiao da realizaccao do evento, conforme ficamos sabendo por meio do livro, houve investimento considerável na infraestrutura do Rio de Janeiro, que era avaliada por muitos como inadequada para iniciativa de tamanha magnitude. Hotéis e restaurantes foram inaugurados, outros tantos foram reformados; representantes de vários países se fizeram presentes e edificaccoes especialmente destinadas ao evento foram construidas. Nao

* O presente trabalho nâo contou com apoio financeiro de nenhuma natureza para sua realizacâo. Nâo houve conflito de interesse para a realizaçâo do presente estudo.

por acaso, parte da opiniao pública da época dedicou grande atenccao ao evento.

No que toca ás atividades propriamente esportivas, as comemoraccoes do centenário representaram uma das primeiras ocasioes em que o Estado se envolveu tao sistematicamente com a sua organizaccao. Parte das opinioes sobre o evento criticara-o, justamente, pela centralidade que tive-ram as práticas de esporte, bem como pelo envolvimento do poder público com tais questoes. Lima Barreto, já bastante avesso aos esportes, foi um dos que criticaram o evento por esse motivo. Nas palavras doescritor, ''a comemoracao do centenário, bem dizer, tem sido totalmente esportiva'', conforme relata Melo, em seu capítulo dedicado ás touradas (p. 83).

A diversidade de pontos de vista contidos no livro é um dos seus méritos. Os diferentes capítulos, embora tratando de um mesmo acontecimento, discutem assuntos bastante variados, tais como as relacoes entre o evento e a conjuntura política da época; o uso do evento como catalisador de interesses da política externa brasileira; os conflitos e as divergencias entre diferentes setores ao redor da sua realizaccao; bem como os distintos modos de participaccao e compreensao dos seus sentidos gerais, entre outros. Dessa maneira, abordagens da história económica, social, cultural e política se cruzam e se combinam de maneira bastante criativa.

O livro também apresenta um amplo e diversificado espectro de métodos e fontes. Alguns deles sao bastante inovadores para a historiografia brasileira do esporte. Destacam-se, nesse sentido, o estudo da dimensao económica e o uso de charges como fonte. Na literatura de língua inglesa, o uso de novos métodos e fontes para ampliaccao da compreensao histórica do esporte tem sido apontado como recurso estratégico para o progresso do conhecimento nessa especialidade. Autores como Gary Osmond e Murray Philips, por exemplo, além de tratar teoricamente do assunto, tem se ocupado também em desenvolver uma série de estudos a partir de fontes pouco usuais, como estátuas, fotografias, museus, filmes, cartoes-postais ou transmissoes televisivas de eventos esportivos (entre outros, ver Osmond y Phillips, 2011). No Brasil, alguns dos autores de 1922, ás vezes em diálogo com algumas dessas formulacoes, tem tam-bém explorado possibilidades assim em outras ocasioes (ver

http://dx.doi.Org/10.1016/j.rbce.2013.06.003 0101-3289/

Como citar este artigo: Goncalves Dias CA. História dos megaeventos esportivos no Brasil. Rev Bras Cienc Esporte. 2015. http://dx.doi.org/10.1016Zj.rbce.2013.06.003

IUIIÍPPIW^M AIIIIILE IN PRESS

Melo, 2012; Santos, 2012).1 Nesse sentido, 1922 é mais uma expressao da atual dinámica nas pesquisas históricas sobre esporte no Brasil, cujo crescimento recente tem sido notá-vel.

Além de sua articulacao com o atual estágio da historiografia do esporte, 1922 também responde a demandas epistemológicas próprias a esse ramo do conhecimento, notadamente o estudo do passado motivado por problemas do presente. Embora os autores nao o digam explicitamente, nota-se, nas entrelinhas de vários de seus capítulos, certa preocupacao em vincular algumas das conclusoes apresenta-das no livro ao cenário do esporte contemporáneo. O artigo de Joao Malaia, por exemplo, que trata da dimensao economica do evento, destaca abertamente o assunto. Em suas palavras, ''estamos em um outro período em que o Brasil, e o Rio de Janeiro, mais especificamente, será a sede de dois grandes eventos esportivos mundiais de grande porte [...] Nao se pode esperar compreender este momento se nao nos debrucarmos sobre sua história'' (p. 63).

Nesses termos, as pesquisas reunidas em 1922 assumem uma dimensao - ou um potencial, pelo menos - fortemente político, embora o facam de forma sutil. Nao se diz muito abertamente, por exemplo, que é longa a história de sus-peitas de corrupccao, favorecimentos e desvio de recursos públicos por ocasiao da realizacao de megaeventos esportivos no Brasil. Mas nem seria preciso faze-lo em última instáncia. Para um leitor minimamente informado sobre os acontecimentos atuais ao redor da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, é a narracao pura e simples dos acon-tecimentos tratados pelo livro que se ocupará disso, o que torna bastante evidentes as semelhanccas entre os aconteci-mentos de ontem e de hoje.

Mais do que mera estratégia narrativa, porém, trata-se também de uma forma específica de abordar epistemologicamente os problemas empíricos da pesquisa histórica. Diferentemente do modelo explicativo nomológico das ciencias naturais, a explicaccao de fenomenos sociais nao necessariamente depende de grandes teorias. Ao contrário, aliás, até mesmo o reconhecimento consensual da existencia de teorias é controverso nas ciencias humanas (Gusmao, 2011). Nesse sentido, a cientificidade de uma pesquisa histórica nao decorrerá de sua capacidade de estabele-cer relacoes de homologia com ''referenciais teóricos'', conforme se postula comumente. De outra forma, conforme formulou Jorn Rüssen (2010), ''o próprio narrar a historia já é por si um procedimento explicativo" (p. 51-2, grifo do autor).

Também em sua forma, portanto, 1922 oferece uma contribuiccao significativa. Nao há no livro prolegomenos ou mais delongas. Trata-se, do inicio ao fim, da história propri-amente dita dos esportes praticados nas comemoraccoes do

RESENHA

centenário, sem digressoes. Os capítulos do livro se livram de todo entulho teórico a fim de se dedicar, exclusivamente, a fazer aquilo a que se propoem. No meu ponto de vista, esse é um dos principais motivos pelos quais a obra con-segue agregar profundidade na análise desse evento, com describes densas e pormenorizadas, além de adequada-mente fundamentadas em amplas evidências empíricas.

Por último, a julgar pelo conjunto da producâo recente dos organizadores e autores de 1922, talvez fosse perfei-tamente possível que muitos deles discordassem parcial ou inteiramente das minhas interpretaçoes. A rigor, o livro nâo pretende nem se justifica pelas eventuais influéncias políticas das suas análises, nem tampouco pelo estabelecimento de relacoes de continuidade com o presente. O livro também nâo manifesta hostilidade ao conhecimento teórico na prática historiográfica. Entretanto, parte das apropriacoes possíveis desse livro pode tangenciar esses aspectos. Essa pluralidade de leituras possíveis, aliás, é mais um dos seus méritos, pois uma das formas de se avaliar a relevância de uma obra é por meio da sua capacidade de fomentar discus-soes e extrapolar até seus objetivos iniciais.

Conflitos de interesse

O autor declara nâo haver conflitos de interesse. Referencias

Gusmâo L. O fetichismo do conceito: limites do conhecimento teórico na investigacâo social. Rio de Janeiro: Toopbooks; 2011. de Melo VA. Pequenas-grandes representares do império portugués: a série postal modalidades desportivas (1962). Estudos Históricos 2012;25(20):426-46, Rio de Janeiro. Osmond G, Phillips GM. Enveloping the past: sport stamps, visuality, and museums. The International Journal of the History of Sport 2011;28(8-9):1138-55, London. Rüssen J. Reconstruçâo do passado. Brasilia: Ed. da UnB; 2010. Santos JMUM. A história económica entra em campo: O Rio de Janeiro e as competicoes esportivas internacionais de 1919 e 1922. Revista de Economia Política e História Económica, Sâo Paulo, ano 8, n. 27, p. 153-198, dez. 2011/jan. 2012. Santos JMUM, Melo VA. 1922: comemoracoes esportivas do centenário. 1. ed. Rio de Janeiro: 7 Letras; 2012. 184 p.

Uleber Augusto Goncalves Dias * Programa de Pós-Graduacao Interdisciplinar em Estudos do Lazer, Escola de Educacao Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil

* Autor para correspondência. E-mail: cleberdiasufmg@gmail.com

1 A título de curiosidade, uma busca pelas palavras "sport history" na base de dados Scopus aponta Osmond, Melo e Philips como os autores com maior número de ocorréncias: nove, seis e cinco, respectivamente.

Como citar este artigo: Goncalves Dias CA. História dos megaeventos esportivos no Brasil. Rev Bras Cienc Esporte. 2015. http://dx.doi.org/10.10167j.rbce.2013.06.003