Scholarly article on topic 'Associação entre doença desmielinizante e doença reumática autoimune em uma população pediátrica'

Associação entre doença desmielinizante e doença reumática autoimune em uma população pediátrica Academic research paper on "Health sciences"

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Academic journal
Revista Brasileira de Reumatologia
OECD Field of science
Keywords
{"Doenças autoimunes" / "Doenças reumáticas" / "Doenças desmielinizantes" / Infância / "Autoimmune diseases" / "Rheumatic diseases" / "Demyelinating diseases" / Childhood}

Abstract of research paper on Health sciences, author of scientific article — Ana Luiza M. Amorim, Nadia C. Cabral, Fabiane M. Osaku, Claudio A. Len, Enedina M.L. Oliveira, et al.

Resumo Introdução Esclerose múltipla (EM) e neuromielite óptica (NMO) são doenças desmielinizantes do sistema nervoso central. A autoimunidade entre pacientes com doenças desmielinizantes e seus parentes tem sido amplamente investigada e discutida. Estudos recentes demonstram maior incidência de doenças reumáticas autoimunes entre pacientes adultos com EM e NMO e seus parentes, mas não há estudos na população pediátrica. Objetivo Avaliar a associação de EM e NMO com doenças reumáticas autoimunes em pacientes pediátricos. Método Foram incluídos 22 pacientes menores de 21 anos com diagnóstico de EM ou NMO antes dos 18 anos e avaliados dados epidemiológicos, clínicos, associação com doenças autoimunes, história familiar de doenças autoimunes, exames laboratoriais, exames de imagem e presença de autoanticorpos. Resultados Entre os pacientes estudados, houve prevalência do sexo feminino (68,1%). A média de idade de início dos sintomas foi de oito anos e nove meses e a média de idade dos pacientes na avaliação foi 16 anos e quatro meses. Dois pacientes (9%) apresentaram doença reumática autoimune associada, um caso de dermatomiosite juvenil em paciente com NMO e outro de lúpus eritematoso sistêmico juvenil em paciente com EM. Três pacientes (13%) apresentaram história familiar de autoimunidade em parentes de primeiro grau. Anticorpo antinuclear (ANA) positivo foi encontrado em 80% dos pacientes com NMO e em 52% dos pacientes com EM. Cerca de 15% dos pacientes com ANA positivo apresentaram diagnóstico definitivo de doença autoimune reumática associada. Conclusão Entre os pacientes com doenças desmielinizantes diagnosticadas durante a infância incluídos nesta pesquisa houve uma alta frequência de ANA positivo, mas uma menor taxa de associação com doenças reumáticas autoimunes do que a encontrada em trabalhos conduzidos em adultos. Abstract Introduction Multiple sclerosis (MS) and neuromyelitis optica (NMO) are demyelinating diseases of the central nervous system. Autoimmunity in patients with demyelinating disease and in their families has been broadly investigated and discussed. Recent studies show a higher incidence of rheumatic autoimmune diseases among adult patients with MS or NMO and their families, but there are no studies in the pediatric population. Objective To evaluate an association of MS and NMO with autoimmune rheumatic diseases in pediatric patients. Method 22 patients younger than 21 years old with MS or NMO diagnosed before the age of 18 years were evaluated regarding epidemiological data, clinical presentation, association with autoimmune diseases, family history of autoimmune diseases, laboratory findings, imaging studies and presence of auto‐antibodies. Results Among the patients studied, there was a prevalence of females (68.1%). The mean age of symptoms onset was 8 years and 9 months and the mean current age was 16 years and 4 months. Two patients (9%) had a history of associated autoimmune rheumatic disease: one case of juvenile dermatomyositis in a patient with NMO and another of systemic lupus erythematosus in a patient with MS. Three patients (13%) had a family history of autoimmunity in first‐degree relatives. ANA was found positive in 80% of patients with NMO and 52% of patients with MS. About 15% of ANA‐positive patients were diagnosed with rheumatologic autoimmune disieses. Conclusion Among patients with demyelinating diseases diagnosed in childhood included in this study there was a high frequency of ANA positivity but a lower association with rheumatologic autoimmune diseases than that observed in studies conducted in adults.

Academic research paper on topic "Associação entre doença desmielinizante e doença reumática autoimune em uma população pediátrica"

RBR3351-5

ARTICLE IN PRESS

rev bras reumatol. 2016;xxx(xx):xxx-xxx

REVISTA BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA

www.reumatologia.com.br

Artigo original

Associagao entre doenga desmielinizante e doenca reumática autoimune em uma populacao pediátrica^

Ana Luiza M. Amorima'*, Nadia C. Cabralb, Fabiane M. Osakua, Claudio A. Lena, Enedina M.L. Oliveirac e Maria Teresa Terreria

a Universidade Federal de Sao Paulo (Unifesp), Departamento de Pediatría, Setor de Reumatologia Pediátrica, Sao Paulo, SP, Brasil b Universidade Federal de Sao Paulo (Unifesp), Sao Paulo, SP, Brasil

c Universidade Federal de Sao Paulo (Unifesp), Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, Setor de Doencas Desmielinizantes, Sao Paulo, SP, Brasil

informaçôes sobre o artigo resumo

Histórico do artigo: Introduçâo: Esclerose múltipla (EM) e neuromielite óptica (NMO) sao doenças desmieli-

Recebido em 7 de janeiro de 2016 nizantes do sistema nervoso central. A autoimunidade entre pacientes com doenças

Aceito em 19 de agosto de 2016 desmielinizantes e seus parentes tem sido amplamente investigada e discutida.

On-line em xxx Estudos recentes demonstram maior incidencia de doencas reumáticas autoimunes entre

__pacientes adultos com EM e NMO e seus parentes, mas nao há estudos na populacao pediá-

Palavras-chave: t:nca.

Doencas autoimunes Objetiuo:Avaliar a associacao de EM e NMO com doencas reumáticas autoimunes em paci-

Doencas reumáticas entes pediátric°s.

Doencas desmielinizantes Método:Foram incluidos 22 pacientes menores de 21 anos com diagnóstico de EM ou NMO

Infância antes dos 18 anos e avaliados dados epidemiológicos, clínicos, associacao com doencas

autoimunes, história familiar de doencas autoimunes, exames laboratoriais, exames de imagem e presentía de autoanticorpos.

Resultados:Entre os pacientes estudados, houve prevalência do sexo feminino (68,1%). A média de idade de inicio dos sintomas foi de oito anos e nove meses e a média de idade dos pacientes na avaliacao foi 16 anos e quatro meses. Dois pacientes (9%) apresentaram doenca reumática autoimune associada, um caso de dermatomiosite juvenil em paciente com NMO e outro de lúpus eritematoso sistêmico juvenil em paciente com EM. Três pacientes (13%) apresentaram história familiar de autoimunidade em parentes de primeiro grau. Anticorpo antinuclear (ANA) positivo foi encontrado em 80% dos pacientes com NMO e em 52% dos pacientes com EM. Cerca de 15% dos pacientes com ANA positivo apresentaram diagnóstico definitivo de doenca autoimune reumática associada.

* Estudo feito com a colaborado conjunta dos setores de Reumatologia Pediátrica e Doencas Desmielinizantes da Universidade Federal de Sao Paulo, Sao Paulo, SP, Brasil.

* Autor para correspondencia.

E-mails: amorim.analuiza@gmail.com, teterreri@terra.com.br (A.L. Amorim). http://dx.doi.org/10.1016/j.rbr.2016.08.004

0482-5004/© 2016 Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este e um artigo Open Access sob uma licenca CC BY-NC-ND (http:// creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

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Keywords:

Autoimmune diseases Rheumatic diseases Demyelinating diseases Childhood

ConcIusao:Entre os pacientes com doencas desmielinizantes diagnosticadas durante a infancia incluidos nesta pesquisa houve uma alta frequencia de ANA positivo, mas uma menor taxa de associacao com doencas reumáticas autoimunes do que a encontrada em trabalhos conduzidos em adultos. © 2016 Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este e um artigo Open Access sob uma licenca CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Association between demyelinating disease and autoimmune rheumatic disease in a pediatric population

abstract

Introduction:Multiple sclerosis (MS) and neuromyelitis optica (NMO) are demyelinating diseases of the central nervous system. Autoimmunity in patients with demyelinating disease and in their families has been broadly investigated and discussed. Recent studies show a higher incidence of rheumatic autoimmune diseases among adult patients with MS or NMO and their families, but there are no studies in the pediatric population. Objective: To evaluate an association of MS and NMO with autoimmune rheumatic diseases in pediatric patients.

Method: 22 patients younger than 21 years old with MS or NMO diagnosed before the age of 18 years were evaluated regarding epidemiological data, clinical presentation, association with autoimmune diseases, family history of autoimmune diseases, laboratory findings, imaging studies and presence of auto-antibodies.

ResuIts:Among the patients studied, there was a prevalence of females (68.1%). The mean age of symptoms onset was 8 years and 9 months and the mean current age was 16 years and 4 months. Two patients (9%) had a history of associated autoimmune rheumatic disease: one case of juvenile dermatomyositis in a patient with NMO and another of systemic lupus erythematosus in a patient with MS. Three patients (13%) had a family history of autoimmunity in first-degree relatives. ANA was found positive in 80% of patients with NMO and 52% of patients with MS. About 15% of ANA-positive patients were diagnosed with rheumatologic autoimmune disieses.

Conclusion: Among patients with demyelinating diseases diagnosed in childhood included in this study there was a high frequency of ANA positivity but a lower association with rheumatologic autoimmune diseases than that observed in studies conducted in adults. © 2016 Published by Elsevier Editora Ltda. This is an open access article under the CC BY-NC-ND license (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introdugäo

49 O termo doengas desmielinizantes refere-se ao grupo de pato-

50 logias que apresentam, em comum, a perda da bainha de

51 mielina, com relativa preservagao axonal. Dentre suas diver-

52 sas categorias, destacamos as de causa inflamatoria, em

53 especial a esclerose múltipla (EM), doenca neurológica mais

54 incapacitante a atingir adultos jovens, e a neuromielite óptica

55 (NMO). Os aspectos clínicos e patológicos dessas condicöes

56 levam a crer que se trata de doencas autoimunes inflamató-

57 rias, que levam a deterioracao progressiva de diversas funcöes

58 do organismo.1-4

59 A EM pode envolver qualquer parte do SNC em diferen-

60 tes momentos de sua evolucao. Os sintomas iniciais mais

61 comuns sao paresia em um ou mais membros, sinais de

62 liberacao piramidal (espasticidade, hiper-reflexia, sinal de

63 Babinski e clonus), ataxia, disartria, parestesias, incontinencia

64 ou retencao urinária e fecal ou disfuncao sexual.5

A NMO ou doença de Devic caracteriza-se pela produçâo 65

de anticorpos contra a barreira hematoencefálica. Os primei- 66

ros sintomas ocorrem entre a 3a e a 4a décadas de vida, sob 67

a forma de neurite óptica e/ou mielite com extensao longi- 68

tudinal. A neurite óptica se manifesta com reducao aguda da 69

acuidade visual bilateral, com recuperacao parcial. A mielite 70

se caracteriza por sintomas motores bilaterais, com perda de 71

força importante, alterares sensitivas e recuperacao parcial 72

pós-surto.6 73

A autoimunidade que cerca os pacientes com doencas 74

desmielinizantes e seus parentes tem sido amplamente 75

investigada e discutida. Estudos recentes demonstram que 76

pacientes com EM e NMO, bem como seus parentes, têm 77

maior risco de apresentar, em algum momento, diagnós- 78

tico associado de doencas reumáticas autoimunes. Nenhum 79

desses trabalhos, no entanto, foi direcionado à populacao 80

pediátrica.7,8 81

O objetivo deste estudo foi avaliar a associacao de EM 82

ou NMO com doencas reumáticas autoimunes em pacientes 83

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de uma populaçâo pediátrica e seus parentes de primeiro grau.

Pacientes e métodos

Foram incluidos todos os pacientes com idade atual até 21 anos com diagnóstico de EM, de acordo com os critérios de McDonald, ou NMO, de acordo com critérios revisados em 2006, em acompanhamento nos servicios de doencas desmi-elinizantes do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia e do setor de Reumatologia Pediátrica do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (EPM), da Universi-dade Federal de Sao Paulo (Unifesp), em um estudo transversal retrospectivo de avaliacao de prontuários. O diagnóstico de lupus eritematoso sistemico juvenil (LESj) e dermatomio-site juvenil (DMJ) foi feito de acordo com os critérios da literatura.6,9-11 Todos os pacientes eram menores de 18 anos ao diagnóstico da doenca desmielinizante ou reumática autoi-mune.

Foram coletadas as seguintes informacoes: dados demográficos, idade atual, idade de inicio dos sintomas e tempo de evolucao da doenca; sinais e sintomas da doenca desmielinizante, história de recorrencias, numero de surtos e intervalo entre eles; doencas autoimunes associadas; história familiar de doencas autoimunes; exames laboratoriais e presenca de anticorpo antinuclear (ANA), fator reumatoide (FR), anticorpos contra antigenos extraídos do núcleo (anti--ENA), antiaquaporina, anticardiolipina e anti-DNA; análise de liquido cefalorraquidiano (LCR) e exames de imagem como ressonancia magnética (RM) de cranio e RM de coluna.

As caracteristicas demográficas e clinicas foram descritas em frequencias absoluta, relativa, mediana e valores minimos e máximos, de acordo com a natureza das variáveis.

Resultados

Foram selecionados 22 pacientes com diagnóstico de doenca desmielinizante: 17 com EM (77,3%) e cinco com NMO (22,7%). A tabela 1 resume as características demográficas dos pacientes.

As queixas predominantes dos pacientes com EM foram o comprometimento visual (41%), de tronco encefálico (41%) e motor piramidal (35%). Todos os pacientes com NMO apre-sentaram comprometimento visual em algum momento da

Tabela 1 - Características demográficas da populaçâo do estudo

EM n = 17 NMO n = 5 Total n = 22

Sexo feminino 10 (58,8) 5 (100) 15 (68,2)

Idade atual (meses) 223 235 224

Idade de início dos 150 120 132

sintomas (meses)

Tempo de evoluciao da 12 57 24

doencia (meses)

EM, esclerose múltipla; NMO, neuromielite óptica. Resultados expressos em n (%) e mediana (variagao).

evolucao da doenca. Outras queixas frequentes foram o comprometimento motor piramidal (60%), o comprometimento sensitivo (40%) e o comprometimento esfincteriano (40%) (tabela 2). A tabela 2 descreve as características clínicas dos pacientes com doencas desmielinizantes.

Apresentaram recorrencias 14 pacientes com EM, com média de 2,5 surtos por paciente, com intervalo mínimo de um mes e máximo de 108 meses entre eles. Todos os pacientes com NMO apresentaram história de recorrencia, com média de tres surtos por paciente, com intervalo mínimo de dois meses e máximo de 29 meses entre eles.

Entre os pacientes incluídos neste estudo, apenas dois (9%) apresentaram história de doenca reumática autoimune asso-ciada. O primeiro apresentou diagnóstico de base de EM e cerca de um ano após o primeiro surto evoluiu com quadro clínico-laboratorial compatível com LESj. O segundo apresen-tou diagnóstico de DMJ, evoluiu com diagnóstico de NMO cerca de dez anos após o início dos sintomas da doenca autoimune.

Apenas tres (13%) pacientes apresentaram história familiar de autoimunidade em parentes de primeiro grau. Dois pacientes com EM (um deles com diagnóstico de LESj associado a doenca desmielinizante) apresentaram história familiar de lúpus eritematoso sistemico. Um paciente com diagnóstico de NMO apresentou história familiar de artrite reumatoide.

Dentre os pacientes com EM, nove (53%) apresentaram ANA positivo, inclusive o paciente com diagnóstico de LESj. O padrao predominante foi o nuclear pontilhado fino (88%). O paciente com diagnóstico associado de LESj apresentou tam-bém anticardiolipina IgM positiva e antinucleossomo positivo. Dentre os pacientes com NMO, quatro (80%) apresentaram ANA positivo, inclusive o paciente com diagnóstico de DMJ. O padrao predominante foi o nuclear pontilhado fino (75%).

Tabela 2 - Características clínicas da populaçâo do estudo

EM n = 17 NMO n = 5 Total n = 22

Comprometimento motor (tetraparesia/hemiparesia/paraparesia) 6 (35,3) 3(60) 9 (40,1)

Comprometimento cerebelar (dismetria e ataxia de marcha) 3 (17,6) 0 3 (13,6)

Comprometimento sensitivo (hipoestesia táctil superficial e profunda/hipoestesia dolorosa) 4(23,5) 2 (40) 6 (27,3)

Comprometimento visual (baixa de acuidade visual e defeito pupilar aferente) 7 (41,2) 5 (100) 12 (54,5)

Comprometimento de tronco encefálico (diplopia, nistagmo) 7 (41,2) 0 7 (31,8)

Comprometimento esfincteriano 1 (5,9) 2 (40) 3 (13,6)

(vesical/anal)

EM, esclerose múltipla; NMO, neuromielite óptica. Resultados expressos em n (%).

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Tabela 3 - Presença de autoanticorpos na populaçâo do estudo

EM n = 17 NMO n = 5 Total n = 22

ANA 9 (52,9) 4 (80) 13 (59,1)

Padráo NPF 8 (88,9) 3(75) 11 (84,6)

Outros padrôes 1 (11,1) 1 (25) 2 (15,4)

Diluiçâo 1:160 3 (33) 1 (25) 4 (30,8)

1:320 3 (33) 2 (50) 5 (38,5)

1:640 1 (11) 0 1 (7,7)

1:1280 2 (22) 1 (25) 3 (23,1)

ACL IgM 1 (5,9) 1 (20) 2 (9,1)

IgG 0 0 0

Outros Antiaquaporina a 3 (60) a

ACL, anticardiolipina; ANA, anticorpo antinuclear; EM, esclerose múltipla; NMO, neuromielite óptica; NPF, nuclear pontilhado fino. Resultados expressos em n (%).

a O anticorpo antiaquaporina foi avaliado somente nos pacientes com diagnóstico de NMO.

154 O paciente com diagnóstico associado de DMJ apresentou anti-

155 cardiolipina IgM positiva. Em exame posterior esse anticorpo

156 foi negativo. Ao todo, 15% dos pacientes com ANA positivo

157 apresentaram diagnóstico conclusivo de doenca reumática

158 autoimune associada a doenca desmielinizante.

159 Tres dos pacientes com diagnóstico de NMO (60%) apresen-

160 taram antiaquaporina positivo. A tabela 3 resume a presencia

161 de autoanticorpos na populacáo do estudo.

162 Náo foram observados anticorpos anti-ENA, anti-DNA

163 ou fator reumatoide. Nenhum dos pacientes deste estudo

164 apresentou qualquer citopenia (anemia, leucopenia, plaque-

165 topenia), queda do complemento ou alterares de ureia e

166 creatinina.

167 Somente os pacientes com diagnóstico de EM foram sub-

168 metidos a puncáo lombar. Desses, seis (35,3%) apresentaram

169 bandas oligoclonais no líquor cefalorraquidiano.

170 Quatro pacientes (23,5%) com EM receberam tratamento

171 com glatiramer e nove (52,9%) receberam tratamento com

172 betainterferona. Outras drogas associadas foram prednisona

173 (5%) e imunoglobulina (5%). O paciente com diagnóstico

174 de LESj recebeu também ácido acetil-salicílico, hidroxicloro-

175 quina, azatioprina, além de pulsoterapia com metilpredniso-

176 lona e ciclofosfamida. Todos os pacientes com NMO receberam

177 tratamento com prednisona e azatioprina e um paciente rece-

178 beu também imunoglobulina endovenosa. O paciente com

179 diagnóstico associado de DMJ recebeu também tratamento

180 com metotrexato.

181 Os pacientes com diagnóstico de EM-LESj e NMO-DMJ

182 apresentaram diversos episódios de surtos e remissoes

183 ao longo de sua evolucáo e atualmente encontram-se em

184 remissáo, sem sequelas neurológicas.

Discussáo

Diferentes estudos demonstram a associacáo entre as doencas desmielinizantes e outras doencas autoimunes.8 Os resultados de uma revisáo sistemática recente apontam para o lúpus eritematoso sistemico (LES) e a artrite reumatoide como as doencas autoimunes reumáticas mais frequentemente asso-ciadas a EM.8

Em 2000, um estudo de caso-controle comparou pacientes com EM e controles sem doencas desmielinizantes, em sua maioria adultos, quanto a ocorrencia de doencas autoimunes que incluíram tireoidite autoimune, gastrite autoimune, doenca de Addison, artrite reumatoide, penfigo vulgar, esclerodermia, cirrose biliar primária, LES e espondi-lite anquilosante. Pacientes com EM apresentaram uma maior prevalencia dessas condicoes (20%) em comparacáo com os controles sem EM (13%), bem como seus parentes de pri-meiro grau (45% contra 27%, respectivamente).7 Em 2006, um estudo caso-controle encontrou resultados semelhantes, que apontaram ainda para a importancia dos genes HLA-DR na determinacáo da autoimunidade que envolve os pacientes com EM e suas familias.12

Estudo com pacientes em sua maioria adultos com NMO também mostrou que cerca de um terco dos pacientes apresentou diagnóstico de outra doenca autoimune, como síndrome de Sjogren, colangite esclerosante primária e púrpura trombocitopenica imune.13

Uma coorte retrospectiva, no entanto, demonstrou náo haver maior risco de doencas reumáticas autoimunes em pacientes com EM (RR: 0,9; com CI: 0,7-1,03), ao contrário de seus parentes, que apresentaram risco aumentado para as mesmas (RR: 1,2; com CI: 1,1-1,4).14 Esses achados podem estar relacionados a possíveis vieses e uso de diferentes critérios diagnósticos para as diversas doencas autoimunes avaliadas.14

Dois pacientes (9%) com EM ou NMO incluídos no presente estudo apresentaram doencas reumáticas autoimunes: LESj e DMJ, respectivamente. Embora o LES tenha sido descrito em associacáo com doencas desmielinizantes, em nossa revisáo da literatura foram encontradas apenas duas publicacoes que relacionaram essas doencas a dermatomiosite.15,16 O primeiro relato se refere a um adulto do sexo masculino com diagnóstico prévio de EM que, após tratamento com interferon beta-1A, desenvolveu lesoes cutaneas típicas de dermatomiosite (pápulas de Gottron e heliótropo) e fraqueza muscular proximal, com biópsia cutanea compatível com o diagnóstico.15 A segunda publicacáo trata-se de uma série de casos de pacientes com NMO de início na infancia e adolescencia em que um dos pacientes apresentou diagnóstico associado de DMJ. Náo foi detalhada a evolucáo clínica ou o tra-tamento recebido por esse paciente. Neste estudo náo foram avaliados os antecedentes familiares de doencas autoimunes dos pacientes com NMO.16

As manifestares neurológicas dos pacientes com LES podem mimetizar as alteracoes encontradas nos pacientes com EM e NMO, especialmente nos períodos em que a doenca apresenta maior atividade. A mielite transversa, por exemplo, apesar de rara, já foi descrita diversas vezes como manifestacáo neurológica de pacientes com LES, associada ou náo a neurite óptica. Nesses pacientes a diferenciacáo entre atividade do LES ou coexistencia de EM ou NMO pode ser complexa.17

Szmyrka-Kaczmarek et al. descrevem em seu estudo caso-controle a maior prevalencia de ANA e anticorpos anti-fosfolípides em pacientes com EM sem, no entanto, correlacáo com sintomas sugestivos de doencas reumáticas autoimunes ou eventos tromboembólicos.18 No mesmo estudo, foi possível correlacionar os autoanticorpos a determinados padroes de

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apresentacao clínica da EM. Assim, pacientes com ANA positivo, principalmente em altos títulos, apresentaram doenca de menor duracao e pouca evolucao para incapacidade. Já a presenca do anti-p2 glicoproteína I esteve associada a doenca de curso mais arrastado, com maiores limitacoes.18

O estudo de Hilário et al. encontrou ANA positivo em 12,6% de criancas saudáveis e em 36,2% de criancas com doencas reumáticas autoimunes variadas.19 Estudos mostram que a positividade do ANA em pacientes com EM pode variar de 20-60% e nos pacientes com NMO, aproxima-se de 45%.20-22 A positividade do ANA entre os pacientes com doencas desmielinizantes incluídos no presente estudo foi de cerca de 59%, dentre os quais 15% (dois pacientes) apresentaram diagnóstico final de doenca reumática autoimune associada. Sugere-se, dessa forma, que os pacientes portadores de doencas desmielinizantes e que apresentem ANA positivo recebam uma investigacao complementar mais detalhada a fim de excluir a possibilidade de doencas autoimunes associadas.

Em suma, observamos entre os pacientes com doencas desmielinizantes diagnosticadas durante a infancia incluí-dos nesta pesquisa uma alta frequencia de ANA positivo, mas uma taxa de associacao com doencas reumáticas autoi-munes menor do que a encontrada em trabalhos conduzidos em adultos, apesar de significativa para a populacao deste estudo.

Conflitos de interesse

Os autores declaram nao haver conflitos de interesse. referencias

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