Scholarly article on topic 'O impacto da infertilidade: narrativas de mulheres com sucessivas negativas pelo tratamento de reprodução assistida'

O impacto da infertilidade: narrativas de mulheres com sucessivas negativas pelo tratamento de reprodução assistida Academic research paper on "Educational sciences"

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Academic journal
Reprodução & Climatério
OECD Field of science
Keywords
{"Impacto psicossocial" / "Infertilidade feminina" / "Técnicas reprodutivas assistidas" / "Psychosocial impact" / "Women's infertility" / "Assisted reproductive techniques"}

Abstract of research paper on Educational sciences, author of scientific article — Luiz Augusto Teixeira Batista, Wagner Henrique Daibert Bretones, Rogério José de Almeida

Resumo Objetivos Descrever os impactos psicossociais da infertilidade em mulheres que tentam engravidar sem sucesso por meio da reprodução assistida. Métodos Estudo observacional descritivo com abordagem qualitativa e exploratória. Os prontuários foram obtidos por meio de uma clínica de reprodução assistida em Goiânia‐GO. Foram feitas quatro entrevistas com mulheres que se enquadraram nos critérios de inclusão e exclusão, por meio da técnica de entrevista semiestruturada. Resultados Foram analisadas quatro categorias consideradas chave: diagnóstico e início do tratamento; falta de um apoio social; sentimento de fracasso; e perspectivas. A infertilidade gera uma série de sentimentos, como angústia, depressão, culpa, medo, exclusão social. Além disso, diminui a qualidade de vida e afeta diretamente na relação das mulheres com seus parceiros, parentes e ambiente de trabalho. Porém, apesar das frustrações o sentimento que prevaleceu é o de seguir tentando. Conclusões O sofrimento psicossocial das mulheres frente aos sucessivos resultados negativos necessita ser mais bem abordado no âmbito das clínicas especializadas, para oferecer apoio psicossocial precoce para o enfrentamento das possíveis frustrações com os resultados negativos. Abstract Objectives Describe the psychosocial impact of infertility in women trying to conceive without success through assisted reproduction. Methods This is a descriptive observational study with qualitative and exploratory approach. The records were obtained through assisted reproduction clinic in Goiânia‐GO. Four interviews with women were conducted to meet the criteria for inclusion and exclusion, through semi‐structured interview technique. Results Four categories were analyzed considered key: diagnosis and initiation of treatment; lack of social support, feelings of failure and future prospects. Infertility generates a series of feelings such as anxiety, depression, guilt, fear, social exclusion; decrease quality of life and directly affect the women's relationship with their partners, family and work environment. However, despite the frustrations the feeling that prevailed is trying to follow. Conclusions The psychosocial suffering of women facing the successive negative results need to be better addressed in the context of specialized clinics providing early psychosocial support to cope with possible frustrations with negative results.

Academic research paper on topic "O impacto da infertilidade: narrativas de mulheres com sucessivas negativas pelo tratamento de reprodução assistida"

ARTICLE IN PRESS

reprod clim. 2016;xxx(xx):xxx-xxx

Reproduqao & Climatério

http://www.sbrh.org.br/revista

Artigo original

O impacto da infertilidade: narrativas de mulheres com sucessivas negativas pelo tratamento de reproducao assistida

Luiz Augusto Teixeira Batista", Wagner Henrique Daibert Bretonesa e Rogério José de Almeidab'*

a Departamento de Medicina, Pontificia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), Goiania, GO, Brasil b Departamento de Medicina, Programa de Pós-Graduaqáo em Ciencias Ambientais e Saúde (PPGCAS), Pontificia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), Goiania, GO, Brasil

informaqoes sobre o artigo

Histórico do artigo: Recebido em 3 de maio de 2016 Aceito em 18 de maio de 2016 On-line em xxx

Palavras-chave: Impacto psicossocial Infertilidade feminina Técnicas reprodutivas assistidas

resumo

Objetivos:Descrever os impactos psicossociais da infertilidade em mulheres que tentam engravidar sem sucesso por meio da reproducao assistida.

Métodos:Estudo observacional descritivo com abordagem qualitativa e exploratoria. Os prontuários foram obtidos por meio de uma clínica de reproducao assistida em Goiania--GO. Foram feitas quatro entrevistas com mulheres que se enquadraram nos critérios de inclusao e exclusao, por meio da técnica de entrevista semiestruturada. Resultados:Foram analisadas quatro categorías consideradas chave: diagnóstico e inicio do tratamento; falta de um apoio social; sentimento de fracasso; e perspectivas. A infertilidade gera uma série de sentimentos, como angustia, depressao, culpa, medo, exclusao social. Além disso, diminui a qualidade de vida e afeta diretamente na relacao das mulheres com seus parceiros, parentes e ambiente de trabalho. Porém, apesar das frustracoes o sentimento que prevaleceu é o de seguir tentando.

Conclusoes: O sofrimento psicossocial das mulheres frente aos sucessivos resultados negativos necessita ser mais bem abordado no ámbito das clínicas especializadas, para oferecer apoio psicossocial precoce para o enfrentamento das possíveis frustracoes com os resultados negativos.

© 2016 Sociedade Brasileira de Reproducao Humana. Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este e um artigo Open Access sob uma licencia CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/

licenses/by-nc-nd/4.0/).

* Autor para correspondencia. E-mail: rogeriopucgo@gmail.com (R.J. Almeida). http://dx.doi.Org/10.1016/j.recli.2016.05.004

1413-2087/© 2016 Sociedade Brasileira de Reproducao Humana. Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este e um artigo Open Access sob uma licenca CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

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The impact of infertility: women's narratives with negative successive by assisted reproduction treatment

abstract

Keyuiords.'objectiues.'Describe the psychosocial impact of infertility in women trying to conceive Psychosocialimpact without success through assisted reproduction.

W°men's infertility Methods.This is a descriptive observational study with qualitative and exploratory appro-

Assisted r"eproductive techniques ach. The records were obtained through assisted reproduction clinic in Goiania-GO. Four

interviews with women were conducted to meet the criteria for inclusion and exclusion, through semi-structured interview technique.

Results.Four categories were analyzed considered key: diagnosis and initiation of treatment; lack of social support, feelings of failure and future prospects. Infertility generates a series of feelings such as anxiety, depression, guilt, fear, social exclusion; decrease quality of life and directly affect the women's relationship with their partners, family and work environment. However, despite the frustrations the feeling that prevailed is trying to follow. ConcIusions.The psychosocial suffering of women facing the successive negative results need to be better addressed in the context of specialized clinics providing early psychosocial support to cope with possible frustrations with negative results.

© 2016 Sociedade Brasileira de Reproducao Humana. Published by Elsevier Editora Ltda. This is an open access article under the CC BY-NC-ND license (http://creativecommons.

org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introduçâo

Ter filhos é parte fundamental do projeto de vida da maio-ria dos casais. O processo biológico da reproducao, além da perpetuaçao da espécie, aparece como uma bêncâo divina.1 É comum associar a fertilidade a um ato de realizacao pessoal, mas, ao contrário, a incapacidade de procriar pode representar um grande sofrimento,1 além de ser considerada vergonhosa e gerar descrédito.2

A infertilidade é considerada pela Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) como uma doenca e um problema de saúde pública. É definida pela incapacidade de conseguir uma gravidez bem-sucedida após 12 meses ou mais de relacôes sexuais desprotegidas ou inseminacao artificial terapéutica.3

Os dados sobre a prevaléncia mundial de casais que nao conseguem ter uma gravidez espontánea mostram que 52,6 a 72,4 milhôes de casais se beneficiariam de algum tipo de intervencao médica para alcancar tal objetivo e que os países menos desenvolvidos têm taxas que variam de 6,9% a 9,3%.4 Dados epidemiológicos apontam uma maior incidéncia em algumas regióes da África Central nas quais a taxa pode che-gar a 50%, em comparacao com 20% na regiao do Mediterráneo e 11% no mundo desenvolvido.5

Considerar a infertilidade apenas como um problema que perturba o bem-estar individual e familiar e a inserçâo social dos casais é atribuir-lhe um caráter reducionista. Muito mais, deverá ser incluida nos atuais conceitos de doenca e considerada como um importante problema de saúde pública.2

O desenvolvimento das tecnologias de reproducao assistida é apontado por homens e mulheres como fator compensador do declínio da fertilidade com o avancar da idade, o que mostra desconhecimento sobre taxas de sucesso

e custos de tratamento. Há uma excessiva confianza nos tratamentos de fertilizado in vitro.6 Se por um lado as técnicas de reproducao assistida tem o papel de auxiliar a resoluto dos problemas de reproducao humana e facilitar o processo de procriacao,7 elas nem sempre resultam em resultados positivos de gravidez.

Parte-se do principio de que a infertilidade pode ocasionar muitos impactos na vida das pessoas. Assim, o presente estudo se direciona para o entendimento de um grupo especifico que é o das mulheres com infertilidade. Muitas podem ser as repercussoes que a problemática da infertilidade trará a mulher.8 Em se tratando da infertilidade feminina, identificam-se que os motivos podem ser observados por alteracoes estruturais, alteracoes ovulatórias, disturbios imu-nológicos e endometriose.9 Além desses, a infertilidade pode sofrer influencias da idade na mulher, da frequencia de relacao sexual, do peso corporal da mulher, do tabagismo, entre outros critérios.9 Ressalta-se também que a infertilidade está presente em quase 70% das mulheres com síndrome dos ovários policisticos.8

Ainda persiste a crenca de se apontar a mulher como única culpada quando o fenómeno da infertilidade chega a uma familia. Conjugado com a pressao familiar está o impacto social do problema. Esse tipo de pressao pode provocar na mulher um grande sofrimento emocional, levá-la mesmo a fingir que nao pretende ter filhos no momento. Esse estado de angústia surge muitas vezes associado a sentimentos de exclusao.10

Nesse sentido, o foco da análise da problematizacao empre-endida situa-se na perspectiva de mulheres com infertilidade e que ainda fazem tratamento para tentar engravidar tendo sucessivas negativas para gravidez. Assim, o presente estudo teve por objetivo descrever os impactos psicossociais da infer-tilidade em mulheres que tentam engravidar sem sucesso por meio da reproducao assistida.

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Métodos

Estudo observacional descritivo com abordagem qualita-tiva e exploratoria com mulheres inférteis submetidas a procedimentos de reproducao assistida com resultados repetidamente negativos para gravidez. O presente trabalho parte de aspectos da realidade prática e da vivencia cotidiana das mulheres entrevistadas que nao podem ser quantificados, centra-se primordialmente na compreensao e explicacao da dinamica das relacoes sociais, dos fenómenos, fatos, significados, das motivacoes, aspiracoes, dos valores e das atitudes.11

O recorte empírico estabelecido neste estudo situou a coleta de dados em uma clínica privada de reproducao assistida na cidade de Goiania/GO. As mulheres foram selecionadas a partir dos prontuários médicos cedidos pelo departamento de reproducao humana da referida clínica. Foram incluídas na pesquisa mulheres acima de 18 anos que eram inférteis, que tinham feito ao menos tres tentativas de fertilizacao in vitro, que tiveram resultados sucessivos negativos, que eram casadas e que ainda nao tinham conseguido engravidar. Nao foram pesquisadas pacientes com diagnóstico prévio de transtorno depressivo anterior ao diagnóstico de infertilidade.

O processo de selecao das mulheres para a entrevista se deu por meio de um levantamento e uma análise de 300 pron-tuários de pacientes de 2013 a 2015. Após essa análise foram selecionadas 21 pacientes que se enquadravam nos critérios de inclusao e exclusao. Todas as selecionadas foram conta-tadas via telefone para explicacao dos termos da pesquisa e agendamento de entrevista. Desse total, quatro concorda-ram em conceder entrevistas, que foram feitas pessoalmente em ambiente no qual estavam presentes somente pesquisa-dor e pesquisada. Como houve recorrencia dos discursos das entrevistadas (saturacao teórica), foi encerrado o trabalho de campo.

Como técnica qualitativa de investigacao, optou-se por usar a entrevista semiestruturada, que permite ao entrevis-tador introduzir um roteiro de temas a serem discutidos, cujo intuito é deixar a entrevistada livre para discorrer sobre os temas, faz apenas interferencias ocasionais, nao se limita a um roteiro fixo de perguntas pré-elaboradas.12

A análise das entrevistas se baseou na perspectiva da Teoria Fundamentada nos Dados (Grounded Theory), uma importante perspectiva de análise para pesquisas qualitativas. Baseia-se nos dados coletados pelas informacoes e nas experiencias vivenciadas pelos indivíduos, em vez de usar padroes predeterminados de medidas e mensuracoes.13

A análise seguiu os procedimentos metodológicos da TFD, empreendeu, após a transcricao das entrevistas, as seguin-tes etapas de codificacao dos discursos.14 A primeira foi a codificacao aberta, em que as narrativas e vivencias coletadas nas entrevistas foram lidas de forma rigorosa pelos pesquisa-dores que fizeram as entrevistas e selecionaram os nucleos de sentido mais relevantes, com consequente criacao de categorias analíticas.

A segunda etapa consistiu na codificacao axial em que foram destacadas as principais categorias explicativas do fenómeno e também foram criadas as subcategorias que se relacionam com os fatos e ajudam a explicar. Na terceira e ultima etapa, foi feita a codificacao seletiva, que consistiu na

organizagao de uma descrigao lógica do fenómeno central do estudo, com selegao do que realmente importava no desen-volvimento representativo acerca das informacoes coletadas com as pacientes.

Antes da entrevista, a paciente lia e assinava o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que deixava clara a garantia de sigilo sobre a identidade da participante. A pesquisa foi registrada na Plataforma Brasil do Ministério da Saúde sob protocolo CAAE: 45784815.6.0000.0037, aprovada pelo Comité de Ética em Pesquisa da Pontificia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) com o parecer n° 1.107.159.

Resultados

Após a transcribo e posterior análise das entrevistas, as categorias explicativas que emergiram da codificacao dos discursos das entrevistadas foram: 1) Diagnóstico e início do tratamento; 2) Falta de apoio social; 3) Sentimento de fracasso e de impotencia; e 4) Perspectivas.

Diagnóstico e o inicio do tratamento

As entrevistadas relataram a importancia de se obter um diagnóstico rápido da infertilidade. Os achados das falas das pacientes mostraram um grande tempo dispendido para se ter a real consciencia da existencia do diagnóstico de infertili-dade. Associada a esse fato, observou-se também uma demora em ser referenciada ao especialista em reproducao humana, ficaram, em sua maioria, anos na tentativa de engravidar. Em 2012 eu engravidei e tive um aborto espontaneo com oito semanas de gestaqáo, com múltiplas tentativas até comecar o tratamento, em acompanhamento com vários médicos. Tenho 41 anos e tento engravidar desde os meus 37 anos (P1).

Identificou-se o caso de uma paciente que nao tinha tanto tempo de tentativas naturais para engravidar em comparacao com as demais. Eu tinha 42 anos quando comecei afazer exames, pois notei que após oito meses sem anticoncepcional náo conseguia engravidar (P2). Assim como a paciente (P3), que comecou o tratamento aos 35 anos depois de notar que havia um ano sem anticoncepcao e relacoes sexuais frequentes sem conseguir engravidar. Essas narrativas demonstram que existem pacientes que comecam a se preocupar e, consequentemente, procuram ajuda do especialista "mais tarde" e outras "mais cedo". No caso dessas duas pacientes pode-se observar claramente essa dicotomia. A paciente (P2) tinha uma carreira que demandou maior tempo para conseguir se "consolidar no mercado" e somente após se preocupar realmente em engra-vidar. Por outro lado, tem-se a entrevistada (P3), que, mais nova e com melhor estabilidade financeira, mostrou-se mais preocupada com sua dificuldade de concepcao.

Os achados da pesquisa também demonstraram que o diagnóstico e o início do tratamento demandaram uma grande dificuldade de acesso ao especialista em reproducao humana. As pacientes foram encaminhadas tardiamente para fazer o tratamento da infertilidade, como se pode identificar na fala de uma das entrevistadas. Comecei afazer essa monitoracáo com uma médica náo especializada em reprodugáo humana e depois segui com o Dr. Xfazendo monitoracáo e uso de progesterona por inúmeras vezes (P2).

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Outro ponto importante no inicio do tratamento foi identificado quando as pacientes afirmaram a grande quantidade de hormônio usada e as repetidas vezes desse procedimento. Já tomei hormônio demais. Iniciei a preparaçao do corpo à base de hormônios e acho que devido à excessiva quantidade desenvolvi endometriose, tendo que tratar para depois continuar minha tentativa de engravidar (P2).

Falta de apoio social

O tratamento em reproducao humana depende de tempo e um alto gasto financeiro, é um grande obstáculo para muitas pacientes que apresentam, várias vezes, mais de um emprego e necessitam de muitos atestados médicos para seguir o tratamento. Eu tenho dois empregos, um no matutino e outro vespertino, e assimfica difícil a monitoracao, devido à quantidade necessária de atestados para as consultas (P2). A mesma paciente ainda refere nao ter perdido o emprego por ser funcionária pública, mas que mesmo assim é obrigada a conviver com piadas e ironias de colegas de trabalho, incluindo o próprio chefe. Vai de novo ao médico? O que você tanto faz no médico? Vai mais ao médico do que no trabalho? (P2).

Como o tratamento requer um condicionamento constante quanto à monitoracao, a questao do apoio social como auxilio às pacientes deve ser levada em consideracao. Em outra paciente observou-se inclusive a situacao drástica de perder o emprego pelo número excessivo de consultas e, por con-sequéncia, de faltas ao seu ambiente de trabalho. Eu era gerente de um banco em Anápolis e era muito bem remunerada, com uma carga de trabalho tranquila. A partir do momento que comecei a ter tantos atestados para as consultas e para o tratamento em si, acabei demitida do emprego e era funcionaria havia 16 anos (P1). Além de se sentir mal por causa das repetidas negativas do tratamento, ainda precisavam passar por outros problemas, como a perda de um emprego de anos de dedicacao.

Quanto às relacôes socioafetivas, foi possível identificar a presenca do marido, de amigos e parentes mais próximos para um apoio social, seja essa presenca negativa ou positiva como fonte de apoio psicossocial às entrevistadas. Observou-se que algumas das pacientes veem em seus maridos apoio, consolo e ajuda, ainda mais quando notam que suas esposas sofrem muito com cada negativa do tratamento. Tem horas que ele diz ter certeza que dará tudo certo, mas no fundo nao sei se ele realmente acredita nisso ou se é somente para me deixar mais tranquila (P1).

Por outro lado, houve relatos sobre os relacionamentos conjugais, nos quais as pacientes nao tém tanto apoio constante de seus respectivos maridos e até mesmo acabam pressionadas. Em relacao ao meu marido, sempre tive muito apoio e nunca tivemos discussôes. Mas recentemente ele tem se mostrado mais cha-teado apesar de naoficar reclamando, ele ironiza a situacao dizendo "minha porra é uma porra mesmo" (P2). Se trata de um relato emblemático, pois além de a paciente ter de conviver com a real possibilidade de nunca engravidar, ainda tem de trabalhar a questao psicológica do marido, já que esse pode até comecar a duvidar de sua masculinidade ao ironizar seu próprio sémen.

Observaram-se cônjuges que acabavam pressionando pelo fato de quererem ter um filho ou mesmo pelo aspecto finan-ceiro dispendioso do tratamento. Mesmo ele me apoiando, ultimamente ele vem cobrando cada vez mais de maneira mais eufê-mica, mas sempre dizendo que precisa serpai de qualquerforma (P4).

As falas das mulheres entrevistadas demonstraram que parentes e amigos próximos agem como apoio social positivo, mas também como fonte negativa que afeta sobremaneira o estresse psicológico criado nas pacientes. Essa parcela de culpa pode ser atribuida ao fato de criarem uma expectativa excessiva em cima das pacientes. Me abro em relacao a esse problema com os amigos mais próximos, tenho bastante apoio. Mas se realmente a gravidez der certo, só voufalar para parentes e amigos após tres meses, para evitar criar expectativas nas pessoas (P1).

Essa influencia negativa se faz presente continuamente como efeito da pressao para se engravidar, muitas vezes de forma inconsciente por parte dos parentes. Por conta disso, as pacientes comecavam a atribuir uma responsabilidade e o grande dever moral de ter que engravidar. Já estouficando enver-gonhada com tantas falhas, nem sei mais o que falar para minha mae e minha familia nos almocos de familia quando me perguntam se ainda vou continuar tentando (P4).

Sentimento defracasso e de impotencia

O sentimento pessoal de fracasso após as sucessivas tentativas de tratamento sem sucesso foi observado em todas as entrevistas. Voce nao tem ideia do que é perder tantas vezes algo que voce nunca teve, que voce só tentou. Parece que nao consigo ser mulher de verdade, se nao tiver umfilho (P2). O desgaste finan-ceiro é grande, mas nem se compara com o desgaste emocional de ver o seu próprio fracasso (P3). A entrevistada (P4) relatou ainda que a cada resultado negativo o casal passava por momentos dificeis, nos quais a paciente nao só tinha que superar, mas ajudar o marido a se superar e continuar a tentar. Tem horas que eu acho que ele ficava pior do que eu, mas tínhamos que mostrar forcas para continuar tentando (P4).

O sentimento de cobranca por um resultado positivo de gravidez pode afetar até a rotina natural dos relacionamentos conjugais desses casais que estao em tratamento para engra-vidar. Ele já sabe que quando eu arrumo a casa para a gente, fago um jantar bacana, estou com uma roupa nova e mais sensual, ele já sabe que naquele dia ele tem que comparecer. E acho que dessa forma acabo pressionando ele e já nao é mais como era antigamente

Um sentimento negativo e frustrante para as entrevistadas foi citado em relacao aos médicos ginecologistas gerais, que para algumas pacientes nao estavam preparados adequa-damente e com isso nao fizeram uma orientacao para suas pacientes poderem se preparar para a maternidade no periodo adequado. Os médicos ginecologistas em geral sao muito despreparados, nao deram informacoes sobre a idade certa para engravidar, antes de comecar a acompanhar com o especialista (P2). A entrevistada (P3), por exemplo, referiu ter ficado desesperada, porque por mais que o médico nao tenha falado formalmente, notou que quis dizer que ela já estava procurando o médico especialista tarde demais.

O desconhecimento das reais taxas de sucesso dos tratamentos de reproducao assistida foi evidenciado como um catalisador de expectativas, que no fim eram frustradas. Desde o inicio esse fato gerava uma expectativa grande por um sucesso e que era quebrada com o resultado negativo, acabava comigo (P2). Tal dado desconhecido pelas entrevistadas era corroborado por informacoes veiculadas nas midias de massa. Eles sófazem isso, mostram famosos bonitos tendo gemeos bonitos, mas naofalam

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o quanto é difícil, o quanto é caro, o quanto é desesperador quando voce comeca a tentar e náo dá certo (P2).

A frustracao e o sentimento de impotencia frente aos repetidos resultados negativos do tratamento se somam ao desgaste financeiro. Por se tratar de procedimentos complexos, de alto custo e com índices de sucesso teoricamente baixos, a insatisfacao aumentava ainda mais. A entrevistada (P1) referiu que tentaria somente mais uma vez por cansar-se de tantas frustracoes e, principalmente, pelo aspecto finan-ceiro do tratamento. Observou-se nos relatos a relacao entre sucessivas negativas com o desgaste emocional e financeiro. Cada inseminacáo dessa é X reais e eu náo sou rica (P2). O desgaste financeiro é grande, mas nem se compara com o desgaste emocional de ver o seu próprio fracasso (P3). É um absurdo eu pagar quase X reais pra náo ter certeza de que isso dará certo (P4).

Perspectivas

Como perspectivas, todas as entrevistadas demonstraram que mesmo apesar das tentativas repetidas e fracassadas persiste o sentimento de esperanca ao continuar as tentativas. Vou lá tentar mais uma vez e se Deus quiser será agora, porque náo sei por quanto tempo meu emocional vai suportar ainda, mesmo sentindo que é algo que devo fazer, como uma missáo (P2). Para a entrevistada (P3), por exemplo, apesar das sucessivas negativas, o médico ainda a estava encorajando a continuar insistindo com o tratamento. Pretendo tentar até o momento em que falarem que náo tem mais a mínima chance, pelofato de ser um desejo que tive desde a infancia de ser máe e também dar esse filho ao meu marido

Foi citada nas entrevistas uma preocupacao com a conti-nuidade no tratamento, por receio de que as drogas usadas, principalmente os hormónios indutores da ovulacao, pudessem prejudicar sua saude. Náo é somente o aspecto financeiro, mas também essa questáo de saúde (P1).

As falhas sucessivas nos tratamentos propostos fizeram com que as pacientes mencionassem algo que pudesse preen-cher esse espaco e a possibilidade de adocao de uma crianca foi aventada. Entretanto, se sentiam também desencorajadas pela grande burocracia para atingir esse objetivo. A fila de adocáo hoje está em torno de sete anos (P4). Burocracia essa que aumenta pelo perfil de criancas que esses casais desejariam. Ele disse que quer uma crianca nova, se for para adotar, náo quer moleque velho cheio de mania. Ele quer uma crianca para criar como sefosse nossofilho mesmo (P4). E também pelo preconceito que ainda existe sobre a adocao. Náo quero filho de ninguém, quero umfilho que seja meu (P3).

Discussáo

Com os resultados da análise das entrevistas foi possível compreender que as narrativas das mulheres que tentam engravidar por meio da reproducao assistida apresentaram importantes reflexoes. Todas as vivencias apontadas pelas entrevistadas tem como efeito final o estresse psicológico e social.1,5,15 Importante também destacar o decréscimo relacionado a qualidade de vida, produzida pela diminuicao do bem-estar.8

As narrativas das entrevistadas acerca do diagnóstico evidenciaram um intervalo grande entre as tentativas fra-cassadas e o acompanhamento em centros de reproducao assistida como um episódio recorrente. Fato que culminava com a potencializacao do sofrimento e dificuldades maiores perante o tratamento. Observou-se que a procura pelo especialista em reproducao humana foi tardia, esse intervalo foi classificado como um fator estressor, responsável por aumentar a ansiedade a medida que os meses passam sem que o objetivo final seja alcancado.16

O avanco das tecnologias de reproducao assistida é apon-tado como fator compensador do declínio da fertilidade com o avancar da idade, o que mostra desconhecimento sobre taxas de sucesso e custos de tratamento.6 A questao da falta de numeros objetivos e da clareza dos profissionais foi uma crítica apontadas pelas entrevistadas. Essas críticas deixam claro a falta de conhecimento popular da eficácia do tratamento, o que gerou nessas pacientes um sentimento de que eram pio-res do que as outras, sem saber de fato que se enquadravam na média.

Relatos de medo em dar continuidade ao tratamento pela grande carga hormonal e o receio de como essa carga exces-siva poderia comprometer a saude foram apontados durante as entrevistas. A dura rotina de acompanhamento do ciclo fazia com que as entrevistadas necessitassem de um grande numero de atestados, o que gerava impactos consideráveis em suas rotinas. Estudos demonstraram que, na maioria das vezes, a mulher é quem se submete a maior parte dos procedi-mentos invasivos, é ela quem necessita de acompanhamento diário do ciclo menstrual e é quem mais sofre com mudancas bruscas em sua agenda para acomodar um regime de trata-mento rígido.16,17

As entrevistadas relataram pressao social mesmo dentro dos quadros familiares, mudanca da relacao com o parceiro, dificuldade de um apoio social mais amplo, principalmente no emprego. Além da sobrecarga do tratamento, a mulher car-rega a sobrecarga do preconceito. Persiste ainda a crenca de se apontar a mulher como unica culpada quando o fenómeno da infertilidade chega a uma família ou até apenas quando após algum tempo de casamento o casal ainda nao tem filhos. A mulher chega mesmo a ser alvo de comentários discriminató-rios por parte dos parentes, principalmente aqueles referentes ao cónjuge.10

O sinergismo do casal durante o processo de tratamento de infertilidade é questao de suma importancia, o qual foi observado nas narrativas das entrevistadas. O tratamento para infertilidade gera, sobremaneira, alteracoes nessa relacao, tanto do ponto de vista positivo quanto negativo. Observaram--se queixas de robotizacao do ato sexual como um ato obrigatório que gerava perda de prazer do momento com o par-ceiro. O ato sexual, antes visto como um momento de prazer, plenitude e satisfacao, pode tornar-se, para os casais inférteis, cumprimento de tarefas conjugais, contribuir para o surgi-mento ou a potencializacao de conflitos e perda da satisfacao

sexual.18

Em contrapartida, as narrativas também demonstraram um lado positivo para a relacao, com a participacao efetiva do homem durante o tratamento. O interesse dos homens pela busca do diagnóstico, da participacao e do envolvimento no tratamento da infertilidade pode levar também a mudancas

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positivas no relacionamento conjugal.18 Estudos mostraram que casais que se deparam com a infertilidade e enfrentam a rotina do tratamento tém a oportunidade de aperfeicoar a comunicacao no seio do casal como ponto de fortalecimento da relacao.18,19

Assim, conjugado com a pressao familiar está o impacto psicossocial do fenômeno da infertilidade. Desejar ter filhos e se deparar com uma impossibilidade nesse processo pode produzir variados tipos de sentimentos e reacôes. Pesquisas tém relatado que as consequéncias da auséncia involun-tária de filhos tém efeitos dramáticos, podem levar a um estigma social, isolamento, ostracismo, negligéncia familiar e até mesmo pela comunidade local.4,16,17,20-22 Pode ainda provocar efeitos tanto na esfera individual como conjugal, passar até por um processo de negacao à aceitacao.4

O sentimento universal evidenciado, o qual foi observado nos relatos das entrevistadas, é o sentimento de culpa pessoal. É fato que do ponto de vista da cultura as mulheres ainda sao educadas na expectativa de um dia terem um filho. Pesquisas mostraram que para muitas mulheres o fato de nao terem filhos é como morrer aos poucos e de forma lenta. A infer-tilidade é descrita e precisa cada vez mais ser compreendida como um fenômeno importante que comporta uma dimensao física, psíquica, emocional e sociocultural.1,5

O plano da maternidade foi apresentado sempre como desejo maior. Com as sucessivas negativas do tratamento, relatos de sensacôes frustrantes apareceram e aumentavam o sofrimento das entrevistadas. O futuro incerto é outro ponto estressor que alimenta sentimentos como medo, frustracao e preocupacao.21 Um apoio psicossocial para essas mulheres é de suma importáncia, já que a perspectiva, em detrimento de todo sofrimento causado, é continuar a tentar até conseguir a maternidade desejada.

Conclusses

O tratamento de reproducao assistida é por si só um fator estressante, aliado ao estresse da árdua rotina de procedimen-tos e medicaçбes, existe a cobranca por parte de parentes, amigos e a dificuldade de conciliar a carga horária entre emprego e a jornada de consultas. A cobranca, mesmo que nao intencional, dos entes queridos e a falta de apoio dos locais de trabalho tem impacto direto na vida das pacientes durante os ciclos de tratamento.

As sucessivas negativas no decorrer do tratamento e a decepçao com a quebra da expectativa pessoal e de terceiros produzem sentimentos e eventos negativos, principalmente a culpa pelo fracasso. Porém, mesmo diante das sucessivas negativas de gravidez, o desejo da maternidade nao diminuiu e a persistência pelo objetivo final ainda permanece.

Mesmo diante de todo o impacto causado pela infertili-dade e, consequentemente, pelo tratamento, as pacientes nao obtiveram de forma efetiva e constante apoio do ponto de vista multidisciplinar. O sofrimento psicossocial das mulheres frente aos sucessivos resultados negativos necessita ser mais bem abordado no âmbito das clínicas especializadas, oferecer apoio psicossocial precoce para o enfrentamento das possíveis frustaçбes com os resultados negativos.

Com as informales aqui apresentadas advindas das narrativas de mulheres que tentam engravidar, os profissionais que atuam diretamente com essas mulheres, como, porexem-plo, os especialistas em reproducao humana, ginecologistas e psicólogos, podem ampliar a abordagem feita a essas pacientes na busca de uma melhor qualidade de tratamento, de enfrentamento e, consequentemente, de vida.

Conflitos de interesse

Os autores declaram nao haver conflitos de interesse. Agradecimentos

Á clínica de reproducao humana pesquisada, a Coordenacao do Curso de Medicina da Pontificia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e as mulheres que gentilmente concederam as entrevistas.

referencias

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