Scholarly article on topic 'Brazilian infant and preschool children feeding: literature review'

Brazilian infant and preschool children feeding: literature review Academic research paper on "Educational sciences"

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OECD Field of science
Keywords
{Feeding / "Child nutrition" / Infant / "Preschool child" / Brazil / Alimentação / "Nutrição da criança" / Lactente / Pré‐escolar / Brasil}

Abstract of research paper on Educational sciences, author of scientific article — Carolina Santos Mello, Karina Vieira Barros, Mauro Batista de Morais

Abstract Objective To assess the feeding profile of Brazilian infants and preschool children aged 6 months to 6 years, based on the qualitative and quantitative analysis of food and nutrient intake. Data source This review analyzed studies carried out in Brazil that had food survey data on infants and preschool children. The search was limited to publications from the last 10 years included in the LILACS and MEDLINE electronic databases. Data summary The initial search identified 1480 articles, of which 1411 were excluded after the analysis of abstracts, as they were repeated or did not meet the inclusion criteria. Of the 69 articles assessed in full, 31 articles contained data on food survey and were selected. Only three studies concurrently assessed children from different Brazilian geographical regions. Of the assessed articles, eight had qualitative data, with descriptive analysis of food consumption frequency, and 23 had predominantly quantitative data, with information on energy and nutrient consumption. Conclusions The articles assessed in this review showed very heterogeneous results, making it difficult to compare findings. Overall, the feeding of infants and preschool children is characterized by low consumption of meat, fruits, and vegetables; high consumption of cow's milk and inadequate preparation of bottles; as well as early and high intake of fried foods, candies/sweets, soft drinks, and salt. These results provide aid for the development of strategies that aim to achieve better quality feeding of Brazilian infants and preschoolers. Resumo Objetivo Verificar o perfil alimentar do lactente e do pré‐escolar brasileiro, na faixa de 6 meses a 6 anos, a partir da análise qualitativa e quantitativa do consumo de alimentos e nutrientes. Fontes de dados Nesta revisão foram analisados estudos feitos no Brasil que apresentavam dados de inquéritos alimentares de lactentes e pré‐escolares. A busca foi limitada às publicações dos últimos dez anos, incluídas nas bases de dados eletrônicas Lilacs e Medline. Síntese dos dados Na pesquisa inicial foram identificados 1.480 artigos, 1.411 foram excluídos após análise dos resumos, por ser repetidos ou não preencher os critérios de inclusão. Dos 69 artigos avaliados na íntegra, foram selecionados 31 que continham dados sobre alimentação. Apenas três trabalhos avaliaram concomitantemente crianças de diferentes regiões geográficas brasileiras. Dos artigos analisados, oito apresentavam informações qualitativas, com análise descritiva da frequência de consumo alimentar, e 23 informações predominantemente quantitativas, com dados de consumo energético e de nutrientes. Conclusões Os artigos analisados na presente revisão apresentaram resultados bastante heterogêneos, o que dificultou a comparação dos achados. De um modo geral, a alimentação do lactente e do pré‐escolar é caracterizada pelo baixo consumo de carnes, frutas, legumes e verduras, por elevado consumo de leite de vaca e inadequação no preparo de mamadeiras, além de precoce e elevado consumo de frituras, doces, refrigerantes e sal. Nossos resultados constituem subsídios para a elaboração de estratégias que visem a melhorar a qualidade da alimentação do lactente e do pré‐escolar brasileiro.

Academic research paper on topic "Brazilian infant and preschool children feeding: literature review"

J Pediatr (Rio J). 2016;92(5):451 -463

ARTIGO DE REVISAO

Brazilian infant and preschool children feeding: literature review^

CrossMark

Carolina Santos Melloa, Karina Vieira Barrosb e Mauro Batista de Moraisc*

a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Faculdade de Nutricao, Maceió, AL, Brasil b Danone Early Life Nutrition, Sao Paulo, SP, Brasil

c Universidade Federal de Sao Paulo (UNIFESP), Escola Paulista de Medicina (EPM), Disciplina de Gastroenterologia Pediátrica, Sao Paulo, SP, Brasil

Recebido em 25 de novembro de 2015; aceito em 23 de fevereiro de 2016

KEYWORDS

Feeding; Child nutrition; Infant;

Preschool child; Brazil

Abstract

Objective: To assess the feeding profile of Brazilian infants and preschool children aged 6 months to 6 years, based on the qualitative and quantitative analysis of food and nutrient intake.

Data source: This review analyzed studies carried out in Brazil that had food survey data on infants and preschool children. The search was limited to publications from the last 10 years included in the LILACS and MEDLINE electronic databases.

Data summary: The initial search identified 1480 articles, of which 1411 were excluded after the analysis of abstracts, as they were repeated or did not meet the inclusion criteria. Of the 69 articles assessed in full, 31 articles contained data on food survey and were selected. Only three studies concurrently assessed children from different Brazilian geographical regions. Of the assessed articles, eight had qualitative data, with descriptive analysis of food consumption frequency, and 23 had predominantly quantitative data, with information on energy and nutrient consumption.

Conclusions: The articles assessed in this review showed very heterogeneous results, making it difficult to compare findings. Overall, the feeding of infants and preschool children is characterized by low consumption of meat, fruits, and vegetables; high consumption of cow's milk and inadequate preparation of bottles; as well as early and high intake of fried foods, candies/sweets, soft drinks, and salt. These results provide aid for the development of strategies that aim to achieve better quality feeding of Brazilian infants and preschoolers. © 2016 Published by Elsevier Editora Ltda. on behalf of Sociedade Brasileira de Pediatria. This is an open access article under the CC BY-NC-ND license (http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).

DOI se refere ao artigo: http://dx.doi.Org/10.1016/j.jped.2016.02.013

* Como citar este artigo: Mello CS, Barros KV, Moráis MB. Brazilian infant and preschool children feeding: literature review. J Pediatr (Rio J). 2016;92:451-63.

* Autor para correspondencia.

E-mail: maurobmorais@gmail.com (M.B. de Morais).

2255-5536/© 2016 Publicado por Elsevier Editora Ltda. em nome de Sociedade Brasileira de Pediatria. Este é um artigo Open Access sob uma liceni;a CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Alimentacao do lactente e do pré-escolar brasileiro: revisao da literatura Resumo

Objetivo: Verificar o perfil alimentar do lactente e do pré-escolar brasileiro, na faixa de 6 meses a 6 anos, a partir da análise qualitativa e quantitativa do consumo de alimentos e nutrientes. Fontes de dados: Nesta revisao foram analisados estudos feitos no Brasil que apresentavam dados de inquéritos alimentares de lactentes e pré-escolares. A busca foi limitada as publicacoes dos últimos dez anos, incluidas nas bases de dados eletrónicas Lilacs e Medline. Síntese dos dados: Na pesquisa inicial foram identificados 1.480 artigos, 1.411 foram excluidos após análise dos resumos, por ser repetidos ou nao preencheroscritérios de inclusao. Dos 69 artigos avaliados na integra, foram selecionados 31 que continham dados sobre alimentacao. Apenas tres trabalhos avaliaram concomitantemente criancas de diferentes regioes geográficas brasilei-ras. Dos artigos analisados, oito apresentavam informacoes qualitativas, com análise descritiva da frequéncia de consumo alimentar, e 23 informacoes predominantemente quantitativas, com dados de consumo energético e de nutrientes.

Conclusoes: Os artigos analisados na presente revisao apresentaram resultados bastante heterogéneos, o que dificultou a comparacao dos achados. De um modo geral, a alimentacao do lactente e do pré-escolar é caracterizada pelo baixo consumo de carnes, frutas, legumes e verduras, por elevado consumo de leite de vaca e inadequaccao no preparo de mamadeiras, além de precoce e elevado consumo de frituras, doces, refrigerantes e sal. Nossos resultados constituem subsidios para a elaboracao de estratégias que visem a melhorar a qualidade da alimentacao do lactente e do pré-escolar brasileiro.

© 2016 Publicado por Elsevier Editora Ltda. em nome de Sociedade Brasileira de Pediatria. Este e um artigo Open Access sob uma licenca CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).

PALAVRAS-CHAVE

Alimentacao; Nutricao da crianca; Lactente; Pré-escolar; Brasil

Introducao

Crescimento e desenvolvimento sao dois fenómenos complexos característicos da faixa etária pediátrica. Ambos sao inter-relacionados. O crescimento depende da interacao de fatores genéticos, os quais tém sua expressao modulada por caracteristicas ambientais, socioeconomicas, emocionais e nutricionais.1 Assim, a alimentacao é importante nao somente para proporcionar pleno crescimento e desen-volvimento, mas também por estar envolvida na génese dos principais distúrbios nutricionais na infancia, como desnutricao energético-proteica, obesidade, deficiéncia de ferro e hipovitaminose A.

Um aspecto que tem recebido atencao crescente nas últimas décadas é a relaccao entre a alimentaccao e o estado nutricional nos primeiros anos de vida com o desenvolvi-mento de doencas crónicas na adultícia.2"5 Nesse contexto, revisao sistemática6 demonstrou que o aleitamento natural em longo prazo se associa com menores valores de pres-sao arterial, colesterol total, prevaléncia de sobrepeso e diabetes mellitus tipo 2, além de melhor desenvolvimento intelectual.

Com base em estudos transversais feitos no Brasil nas décadas de 1970, 1980 e 1990 constatou-se rápido declinio na prevaléncia de desnutriccao energético-proteica e aumento na prevaléncia de sobrepeso e obesidade, o que caracteriza o fenómeno da transicao nutricional.5,7 As mudanccas observadas apresentam particularidades segundo regioes geográficas do Brasil e classes sociais e sao resultantes de profundas mudanccas ocorridas no pais nas últimas décadas.7 Deve ser destacado que a transicao nutricional

é um fenómeno mundial. No mundo, a disponibilidade de alimentos cresceu 10%, com consequente reducao na prevaléncia de desnutriccao e aumento na obesidade, que se transformou em grave preocupaccao em termos de saúde pública. Considera-se que esse fenómeno é explicado, pelo menos em parte, pela influéncia do crescimento económico, da urbanizacao e da globalizacao no padrao alimentar.8

Apesar da importancia do padrao alimentar do lactente e do pré-escolar, nao existem, no Brasil, dados de abran-géncia nacional que abordem a questao, com exceccao da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criancca e da Mulher (PNDS),9 a última feita em 2006. Deve ser destacado que os dados do PNDS sao fundamentalmente qualitativos e relacionados a amamentaccao e alimentaccao complementar.

Como há necessidade de se explorar a produccao cientifica adicional ao PNDS9 sobre o padrao alimentar na infancia, o presente artigo buscou reunir nao somente informaccoes sobre a qualidade da alimentaccao do lactente e pré-escolar brasileiro na atualidade, mas também destacar quais as principais inadequaccoes relacionadas ao consumo de nutrientes nessa populaccao. Se considerarmos que há uma preocupaccao quanto a influéncia das inadequaccoes nutricionais ocorri-das desde a gravidez até a idade pré-escolar na ocorréncia de doenccas e agravos nao transmissiveis em longo prazo, bem como a elevada prevaléncia, no Brasil, de doencas carenciais na infancia, o presente estudo tem como objetivo revisar estudos sobre a alimentaccao do lactente e do pré-escolar brasileiro, entre os 6 meses e os 6 anos, e analisar informaccoes qualitativas e quantitativas do consumo dos principais grupos de alimentos e de nutrientes.

Métodos

Os artigos feitos no Brasil que estao incluidos nesta revi-sao da literatura foram selecionados a partir de buscas nas bases de dados eletronicas Lilacs e Medline. Consideraram--se quatro grupos de palavras-chave: 1. (''alimentacao'' OR ''consumo de alimentos'' OR ''dieta'') [Descritor de assunto] AND (''crianca'' OR ''lactente'' OR ''pre--escolar'') [Limites] AND Brasil [Palavras]; 2. (''padroes alimentares'' OR ''comportamento alimentar'' OR ''habitos alimentares'') [Descritor de assunto] AND (''crianca'' OR ''lactente'' OR ''pre-escolar'') [Limites] AND Brasil [Palavras]; 3. (''alimentos infantis'' OR ''alimentacao complementar'' OR ''nutricao infantil'' OR ''nutricao infantil'' OR ''suplementacao alimentar'' OR ''alimentacao mista'') [Descritor de assunto] AND (''crianca'' OR ''lactente'' OR ''pre-escolar'') [Limites] AND Brasil [Palavras]; 4. (''estado nutricional'' OR ''inqueritos nutricionais'' [Descritor de assunto] AND (''crianca'' OR ''lactente'' OR ''pre-escolar'') [Limites] AND ''Brasil'' [Palavras].

O objetivo desta estratégia foi identificar todos os artigos que apresentavam dados de alimentaccao (desde alimentos complementares consumidos a partir dos 6 meses até os alimentos usados por crianccas maiores com idade inferior a 6 anos). Nao foram contemplados na análise os dados sobre aleitamento materno.

Nao houve restricao de idiomas. No entanto, foram selecionados apenas os artigos originais, feitos com criancas brasileiras. Considerando a amplitude dos resultados encontrados inicialmente, delimitou-se a busca aos artigos

científicos publicados nos últimos dez anos, a última foi feita em marco de 2014. Como critérios de inclusao foram selecionados artigos feitos com criancas com idade inferior a 7 anos e com dados de inquéritos alimentares (recordatorio de 24 horas, dia alimentar habitual, registro alimentar, frequencia alimentar e/ou pesagem direta dos alimentos).

Em uma primeira análise foram excluidos os resumos repetidos, que coexistiam em ambas as bases de dados. Posteriormente, dois revisores (MBM, CSM) selecionaram os resumos de forma independente, a partir dos critérios de elegibilidade pré-definidos. Para os resumos que nao contivessem informacoes suficientes para decisao quanto a inclusao na revisao da literatura, optou-se por avaliar o texto completo. Os casos de discordancia na selecao foram reavaliados até que se obtivesse um consenso.

Na figura 1 está descrito o fluxograma da pesquisa, seleccao e inclusao dos artigos cientificos na revisao da literatura. Foi feita avaliacao padronizada das seguintes informaccoes dos artigos compilados: local do estudo, ano da coleta de dados, tipo de estudo e amostragem, métodos usados para avaliaccao da alimentaccao e sintese dos principais resultados.

Resultados e discussáo

Com a estratégia de busca inicial por palavras-chave foram identificados 1.480 artigos nas bases de dados. Após a exclu-sao dos artigos repetidos e pela análise, a partir dos critérios de inclusao predefinidos, 31 artigos foram elegiveis.

Figura 1 Fluxograma da pesquisa, selecao e inclusao dos artigos científicos na revisao sistemática a Trabalhos publicados nos últimos dez anos (desde 2004). b Repetidos (64)/nao preenchiam os critérios de inclusao (1.347).

c Após leitura do artigo completo, nao tinham dados de inquérito alimentar ou apresentavam dados de crianccas com idade superior a 7 anos (37).

Na análise dos trabalhos contemplados na presente revi-sao da literatura, pode ser constatada uma importante heterogeneidade nos estudos quanto aos objetivos especificos, composiccao das casuisticas, métodos usados para avaliaccao da alimentacao (inquéritos) e expressao dos resultados, o que impossibilitou a comparaccao dos diferentes achados. Assim, foi feita uma análise descritiva dos resultados apresentados nos artigos revisados, buscou-se agregar as informacoes originais obtidas nos diferentes estudos.

Apenas trés artigos avaliaram crianccas provenientes de diferentes regioes geográficas brasileiras: 1. Estudo com 4.322 chancas, feito a partir de dados da PNDS-2006;10 2. Estudo com 3.058 chancas moradoras de nove cidades brasileiras;11 e 3. Estudo com chancas de trés cidades: Recife, Sao Paulo e Curitiba.12 Os demais artigos (n = 28) foram feitos quatro na Regiao Norte, nove na Nordeste, dez na Sudeste e cinco na Sul. Deve ser destacado que trés estudos no Nordeste, feitos em Pernambuco,13"15 e trés do Sul, em Sao Leopoldo (RS),16-18 tratam de diferentes resultados de um mesmo levantamento populacional.

Os artigos foram distribuidos em duas categorias: aqueles com informacoes prioritariamente qualitativas e os que continham informacoes quantitativas. Os artigos foram caracterizados como qualitativos quando foram apresenta-dos apenas dados descritivos da frequéncia de consumo por grupos alimentares ou alimentos específicos. Já os artigos quantitativos foram aqueles com informacoes relacionadas ao consumo energético e/ou de nutrientes. As tabelas 1 e 2 apresentam as informacoes básicas dos oito estudos qualitativos e dos 23 quantitativos, respectivamente.

Deve ser destacado que parcela expressiva dos artigos compilados nao avaliou amostras probabilisticas que representasse adequadamente toda populacao brasileira da faixa etária em análise. Assim, os dados analisados nao podem ser extrapolados para a totalidade da populacao brasileira de lactentes e pré-escolares. Por sua vez, as informacoes obtidas sao as únicas disponiveis no momento e devem ser usadas com cautela enquanto nao sejam feitos estudos com amostragem que levem em consideracao todas as particularidades do Brasil, como, por exemplo, os cenários urbanos e rurais, diferentes condicoes climáticas, status socioeconómico, diferencas culturais e regionais, entre outras.

A seguir sao apresentados comentários críticos que inte-gram os resultados das diferentes pesquisas de acordo com as diferentes categorias de grupos de alimentos e nutrientes.

Consumo de leite de vaca e derivados

De um modo geral, pode ser afirmado que o leite de vaca é um dos alimentos mais frequentemente consumidos por criancas brasileiras. O consumo diário de leite integral ocorreu em média por 76,9% das criancas avalia-das, considerando diferentes estudos que incluíram crianccas entre 1 e 7 anos.19"21 Na Paraiba verificou-se que 85,9% das crianccas entre 6 e 12 meses consumiam diariamente refeicoes do tipo lácteas.22 Quanto ao consumo de fórmulas infantis, verificou-se que apenas 6,7% das criancas maiores de 6 meses as usavam em substituicao ao leite materno.10

Em relaccao ao número de porccoes diárias recomendadas de lácteos, foi observado em Duque de Caxias (RJ)23 que crianccas de 6 a 30 meses tinham um consumo médio de duas

porcoes/dia, o que é considerado inferior ás trés porcoes recomendadas por guia alimentar nacional.24 Por sua vez, em um pequeno grupo de criancas com 2 a 3 anos da Ilha de Paquetá (Rio de Janeiro, RJ), a média de consumo foi ainda menor, de 1,8 porcao/dia, inferior ao recomendado, também, quando usado como referéncia o guia alimentar americano,25 que recomenda duas porcoes/dia. Quanto ao consumo diário per capita de leite de vaca e derivados, conforme dados obtidos em Salvador (BA), criancas de 6 a 12 meses consumiram em média 528,9 mL/dia e criancas de 12 a 24 meses, 548,1 mL/dia.26

Em estudo feito com criancas entre 4 e 12 meses, moradoras em trés cidades brasileiras (Curitiba, Sao Paulo e Recife),12 a idade média de introducao de mamadeira foi de 3 meses e as de alimentaccao complementar e de alimentaccao da família foram, respectivamente, 4 meses e 5,5 meses.

De acordo com recomendaccoes mundiais, deve ser estimulada a manutencao do leite materno como fonte láctea exclusiva até os 2 anos ou mais, é contraindicada a introduccao de leite de vaca integral antes dos 12 meses.27 Já é bem estabelecido que o consumo precoce e/ou excessivo de leite de vaca pode estar relacionado á ocorréncia de anemia ferropriva, alergia alimentar e obesidade.27,28 As fórmulas infantis, apesar de ter proteínas intactas, sao a primeira escolha de alimentaccao láctea para crianccas já desmamadas, devido principalmente á adequaccao das necessidades de proteínas e micronutrientes para lactentes.27

Consumo de carnes

Em relacao á frequéncia de consumo semanal, a PNDS/2006, que avaliou 4.322 criancas das cinco regioes brasileiras, entre 6 e 59 meses, verificou que 24,6% haviam consumido diariamente carne bovina, 6,1% frango e 1,5% peixe, ou seja, o consumo diário de algum tipo de carne ocorreu por apenas 32,2% das criancas estudadas.10 No Estado de Sao Paulo29 constatou-se que a probabilidade de criancas de 6 meses consumirem carnes nas preparaccoes de sopa ou comida de panela foi de 54% e 25%, respectivamente, o que mostra uma tendéncia de aumento do consumo próximo aos 12 meses. O consumo de algum tipo de carne nas últimas 24 horas, por crianccas de 6 a 12 meses, ocorreu em média por aproximadamente 35% das crianccas avaliadas, segundo dados de diferentes estudos,26,29 e por, em média, 47,3% das criancas de 12 a 24 meses.22,26

Quanto ao consumo de porccoes diárias, foi verificado em Sao Leopoldo (RS)18 que 78,4% das criancas consumiam carnes, porém em quantidade insuficiente. Em Campinas (SP)30 verificou-se, em criancas de 2 a 6 anos, o consumo de 1,32 porcao/dia de alimentos do grupo de carnes, nao houve diferenca de consumo entre sexo masculino e feminino. É recomendado o consumo de dias porccoes ao dia de alimentos do grupo de carnes, tanto por guia nacional como pelo internacional.24,25

Em Salvador (BA)26 verificou-se consumo médio per capita de carnes de 13,3 gramas/dia por criancas entre 6 e 12 meses; e de 24,4g/dia por criancas de 12 a 24 meses. Quanto ao equivalente energético diário, estudo feito no Acre31 constatou que o grupo de carnes (bovina, frango

Tabela 1 Tipo de estudo, local e ano, tamanho amostral, idade e método para avaliacao qualitativa do consumo alimentar de oito estudos com lactentes e pré-escolares brasileiros

Referência

Tipo de estudo/Local e ano de coleta

Tamanho Inquérito

amostral / idade alimentar

Resumo dos resultados

Bortolini et al. (2012) Transversal 5 regiöes n = 4.322

do Brasil; 2006/2007 6 a 59 meses

Cagliari et al. (2009) Transversal Campiña n = 112

Grande, PB; 2007 2 a 5 anos

Castro et al. (2004) Transversal n = 69

Tumiritinga, MG; 2001 0 a 60 meses

Gatica et al. (2012) Longitudinal Pelotas, n = 4.231

RS; 2004-2008 12 a 48 meses

Nobre et al. (2012)

Transversal aninhado n = 232 em coorte 5 anos

Diamantina, MG; 2009-2010

Palmeira et al. (2011) Transversal Paraíba - n = 539

14 municipios; 2005 0 a 24 meses

Pereira et al. (2008) Transversal Teresina, n = 135

PI; 2003 36 a 83 meses

Saldiva et al. (2007) Transversal Sao Paulo n = 24.448

-136 municipios; 2004 6 a 12 meses

Questionário de frequência alimentar

Questionário de frequência alimentar

Questionário de frequência alimentar

Frequência de consumo de alimentos nas últimas 24 h

Questionário de frequência alimentar

Recordatorio de 24 horas

Questionário de frequência alimentar

Recordatorio de 24 horas

As criancas residentes nas regióes Sul, Sudoeste e Centro-Oeste consumiram com mais frequência os alimentos recomendados (arroz, pao, batata, feijao, verdura de folha, legumes, carne, iogurte) e os nao recomendados (doces e refrigerantes). As residentes na Regiao Nordeste consumiram com maior frequência frutas, biscoitos e salgadinhos. As criancas residentes no estrato urbano consumiram com mais frequência alimentos recomendados e nao recomendados, quando comparadas com as da zona rural. Grupos de alimentos mais consumidos diariamente: arroz, leite, acúcar/salgadinhos e óleo. Os menos consumidos diariamente foram verduras e legumes e carne. Alimentos consumidos com maior frequência por maiores de 1ano: leguminosas, cereais e leite. Hortalicas, frutas e carnes apresentaram baixo consumo ou estavam ausentes na alimentacao diária (47,3%, 63,6 e 72,7% consumiam menos de 4 vezes/semana). Alto consumo de guloseimas (67,3% consumo pelo menos 1 vez por semana). Criancas de baixo nivel socioeconómico consumiram mais guloseimas, café, pao/biscoitos. Criancas de alto nivel socioeconómico consumiram mais frutas, iogurtes e refrigerantes. Baixa escolaridade materna se associou a maior chance de consumo de alimentos do padrao ''dieta mista'' e menor chance de consumir alimentos do padrao ''lanches''; enquanto os de maior renda per capita têm mais chance de consumir alimentos do padrao ''nao saudável''. Alto consumo de lácteos entre 6 e 24 meses. Consumo diário insuficiente de alimentos fontes de ferro, entre 12 e 24 meses. Observou-se baixo consumo de alimentos com alto ou moderado teores de vitamina A e alto consumo de alimentos com baixo teor desta vitamina.

Aos 6 meses houve alta probabilidade de consumo de lácteos e sopas. A probabilidade de consumo de alimentos fontes de ferro é de 66% aos 6 meses e de 90% aos 12 meses.

Tabela 2 Tipo de estudo, local e ano, tamanho amostral, idade e método para avaliacao quali-quantitativa do consumo alimentar de 23 estudos com lactentes e pré-escolares brasileiros

Referência

Tipo de estudo/Local e ano de coleta

Tamanho Inquérito

amostral / idade alimentar

Resumo dos resultados

Antunes et al. (2010) Transversal n = 384

Duque de Caxias, RJ; 6 a 30 meses 2005

Azevedo et al. (2010) Transversal n = 344

Recife, PE; 2007 24 a 60 meses

Barbosa et al. (2006) Longitudinal n = 20

Ilha de Paquetá, RJ; 2 a 3 anos 2003

Beinner et al. (2010) Longitudinal n = 176

Diamantina, MG; 2006 6 a 24 meses

Bernardi et al. (2011) Transversal п = 362

Caxias do Sul, RS; 2 a б anos 2007

Bueno et al. (2013)

Transversal n = 3.058

Multicentrico (9 2 a 6 anos

cidades brasileiras); 2007

Caetano et al. (2010) Longitudinal n = 179

Curitiba, Sâo Paulo e 4 a 12 meses Recife; 2005

Castro et al. (2009) Transversal n = 69

Assis Brasil e 0 a 24 meses

Acrelândia, AC; 2003

Recordatório de 24 h (2 dias)

Pesagem direta + recordatório de 24h (2 aplicacoes em 20% das crianccas) Avaliaccao inicial por história dietética e, após 6 meses, por pesagem direta dos alimentos e registro alimentar (2 dias)

Registro

alimentar(3 dias)

Pesagem direta + registro alimentar (1 dia)

Pesagem direta + registro alimentar (1 dia)

Registro

alimentar (7 dias)

Dia alimentar habitual

Consumo abaixo das recomendacóes de hortalicas e lácteos. Quanto maior o grau de inseguranca alimentar, menor o consumo de proteínas e ferro. Consumo mediano de vitamina A superior a EAR por criancas de 24 a 47 meses e maiores de 47 meses.

Após 6 meses de permanéncia na creche, maior número de criancas atingiu a recomendacao para: carne (55 para 80%), gordura (45 para 55%) e fruta (20 para 85%). O percentual do grupo dos cereais permaneceu inalterado (20%) e do leite diminuiu (45 para 35%). Nenhuma crianca atingiu a recomendaccao para o consumo de legumes. A média do consumo dietético de zinco foi superior ás recomendares. 30,6% das criancas ingeriram quantidade de Zn abaixo da EAR e 19,4%, valor superior a UL.

56,5% da ingestao alimentar diária de ferro foram fornecidos pela escola; 62,7% da ingestao diária de cálcio, 55,3% da ingestao de vitamina A e 51,4% da ingestao de zinco foram fornecidos pelo domicilio. Crianccas da escola particulares tiveram maior consumo de ferro e vitamina A; na escola pública houve maior consumo de zinco e cálcio. Pelos registros domiciliares 86,8% das criancas consumiram refeiccoes lácteas. A ingestao média de gorduras por criancas de 2 a 3 anos foi inferior ao percentual energético recomendado. Consumo superior de sódio e gordura saturada por 90% e 30% das criancas, respectivamente. Elevada frequéncia de consumo semanal de alimentos industrializados, refrigerantes e sucos artificiais. Elevada inadequacao quantitativa de micronutrientes: zinco (75%), ferro (45%), vitamina A (38%), cálcio (15%). Alta ingestao de carboidratos e leite de vaca. Consumo irregular de frutas, vegetais, feijoes e carne. Consumo acima e abaixo das recomendares para proteinas e ferro, respectivamente, em todas as faixas etárias:

Tabela 2 (Continuacao)

Referencia Tipo de estudo/Local Tamanho Inquérito Resumo dos resultados

e ano de coleta amostral / idade alimentar

Cavalcante et al. Transversal n = 174 Recordatorio Prevalencias de inadequacao:

(2006) Vicosa, MG; 12 a 35 meses 24 horas + vitamina A (36,8%), ferro (13,2%) e

2003-2004 Questionário zinco e (99,4%). Consumo abaixo do

de frequencia recomendado para lipídeos.

alimentar (1 dia)

Costa et al. (2011) Transversal n = 445 Recordatorio Energia, macro e micronutrientes

Gameleira- PE e Sao 0 a 23 meses de 24 horas acima das recomendacoes, exceto:

Joao do Tigre-PB; vitamina A (criancas de 7-11 meses)

2005 apresentaram valores medianos

abaixo da AI; ferro abaixo e zinco e

cálcio acima das referencias em

todas as faixas etárias.

Domene et al. (2006) Transversal n = 94 Pesagem direta + Menor consumo de legumes e frutas,

Campinas, SP 2 a 6 anos recordatorio 24h cereais e gorduras. Maior consumo de

alimentos fontes de proteína (carnes,

lácteos e leguminosas), ricos em

acucares e gordura saturada.

Fernandes et al. Transversal n = 311 Pesagem direta + 78% das criancas apresentaram

(2005) Recife, PE; 1997 - 6 a 59 meses recordatorio 24h adequacao de vitamina A. Maior

1999 proporcao de consumo de vitamina A

de origem animal (58%).

Fidelis et al. (2007) Transversal n = 948 Recordatorio Déficit de energia e excesso de

Pernambuco: Regiao 0 a 5 anos de 24 horas proteínas foram elevados em todas as

metropolitana do faixas etárias e áreas geográficas.

Recife, Interior Elevada ocorrencia de inadequacao

urbano e Interior de ferro e zinco em diferentes faixas

rural; 1997 etárias.

Garcia et al. (2011) Transversal n = 164 (127 Dia alimentar Ingestao abaixo das recomendacoes

Acrelandia, AC; 2007 com inquérito) habitual de vitamina A (42%), zinco (46%) e

- 2008 6 a 24 meses ferro (71%). Baixo consumo de frutas,

hortalicas e carnes; consumo

excessivo de leite de vaca e mingau.

Levy-Costa, Monteiro Transversal n = 1280 (598 Recordatorio Observou-se que 1,1 mg/1.000

(2004) Sao Paulo, SP; com inquérito) de 24 horas calorias de ferro encontra-se na

1995-1996 0 a 59 meses forma heme e 4,3 mg/1.000 calorias

na forma nao heme.

Menezes et al. (2007) Transversal n = 948 Recordatorio Elevada ocorrencia de inadequacao

Pernambuco: regiao 0 a 60 meses de 24 horas energética, principalmente nas faixas

metropolitana do etárias de 48-60 meses e 0-6 meses.

Recife, interior Consumo de proteína superior as

urbano e interior recomendacoes, em todas as faixas

rural (1997) etárias.

Oliveira et al. (2005) Transversal n = 724 Recordatorio Consumo médio de energia e proteína

Salvador, BA; 1996 0 a 24 meses de 24 horas superior a recomendacao para todos

os grupos etários. Os carboidratos

contribuíram com o maior percentual

no valor energético total da dieta e

esse percentual aumenta com a

idade, enquanto a contribuiccao dos

lipídios diminui.

Oliveira et al. (2006) Transversal n = 746 Recordatorio Elevado consumo de leite de vaca

Pernambuco: regiao 6 a 59 meses de 24 horas (88,9%), especialmente o leite em pó

metropolitana do integral (47,8%) e leite fluido (24,1%).

Recife, interior Apenas 7,5% das criancas consumiam

urbano e interior leite modificado ou fórmula infantil.

rural (1997)

AI, Adequate Intake; EAR, Estimated Average Requerement; UL, Tolerable Upper Intake Level.

Tabela 2 (Continuaçâo)

Referência Tipo de estudo/Local Tamanho Inquérito Resumo dos resultados

e ano de coleta amostral / idade alimentar

Portella et al. (2010) Transversal 78 amostras Recordatorio Todas as amostras analisadas

Belém, PA; 2005-2006 de alimentos de 24 h (dois) + apresentaram quantidade de ferro

6 a 18 meses Análise química dos alimentos abaixo do mínimo recomendado. Excesso de sódio foi constatado em 89,2 e 31,7% das amostras dos grupos de baixo e alto nível socioeconómico, respectivamente.

Rauberet al. (2013) Longitudinal n = 345 Recordatorio Apenas 9,6% das criancas tiveram um

Sao Leopoldo, RS/; 3 a 4 anos de 24 h (dois) bom padrao de dieta. Variedade da

2001-2002 dieta e consumo de leite foi maior, e consumo de gordura total e saturada foi menor, entre aquelas criancas que as maes tinham maior escolaridade.

Salles-Costa et al. Transversal n = 383 Recordatorio Idade e inseguranca alimentar

(2010) Rio de Janeiro -Regiao metropolitana; 2005 6 a 30 meses de 24 h (dois) influenciaram a média das porcoes dos grupos de alimentos consumidos pelas criancas. A razao de variancia foi maior para os grupos com moderada a grave inseguranca alimentar do que aqueles com a seguranca alimentar; principalmente para a proteína em crianccas de 6 a 17 meses e carboidratos para as de 18 a 30 meses.

Vítolo et al. (2007) Longitudinal n = 369 Recordatorio O consumo de carne entre as criancas

Sao Leopoldo, RS; < 1 ano de 24 horas de 12 a 16 meses mostrou-se

2001-2002 presente em 78,4% dos inquéritos, porém a porcao consumida foi insuficiente. Maiores ingestoes de ferro e vitamina C se associaram a ausencia de anemia.

Vítoloet al. (2010) Longitudinal n = 345 Recordatorio Aconselhamento dietético das maes

Sao Leopoldo, RS; 3 a 4 anos de 24 horas (dois) no primeiro ano de vida se associou

2001-2002 a melhor qualidade da dieta aos 3-4 anos. Maior número de porcoes consumidas de vegetais e frutas e a maior variedade da dieta foi observado no grupo intervencao; além de menor consumo de colesterol. Os grupos nao diferiram quanto ao consumo de carne, leite, sódio e gordura.

e peixe) contribuiu com 3% do valor energético total de crianças dos 6 aos 11 meses e de 5% em crianças de 12 a 24 meses.

As carnes constituem o grupo de alimentos fontes de ferro com alta biodisponibilidade. Além de ser fonte de ferro heme, potencializa a absorçâo do ferro nâo heme. Deve--se estar atento à dificuldade na aceitaçâo de carnes por parte de lactentes e pré-escolares, sobretudo em relaçcâo à consistência do alimento oferecido. Outro fator que colabora para a ingestâo deficiente é o custo do alimento. Acóes de educaçcâo nutricional podem favorecer o adequado consumo qualitativo e quantitativo de alimentos desse grupo, é

estratégia essencial na prevençâo da anemia por deficiência de ferro.32

Consumo de frutas, legumes e verduras

Apesar de alguns autores29 relatarem elevado percentual de consumo de frutas (87%) por chancas de 6 a 12 meses nas últimas 24 horas, em uma avaliacao de frequencia de consumo semanal o consumo diário de frutas e de suco natural de frutas foi verificado, respectivamente, por 44,6% e 32,5% das chancas avaliadas nas diferentes regioes do

Brasil.10 Observou-se, também, que 11,6% dos lactentes e pré-escolares nao consumiam frutas durante toda a semana e que o consumo de frutas foi mais frequente no Sul, Nordeste e Sudeste do país.10

O consumo médio per capita de frutas, de acordo com estudo feito em Salvador, foi de 183,1 gramas/dia, por criancas entre 6 e 12 meses, e de 223,1 g/dia, por criancas de 12 a 24 meses. Laranja e banana foram as frutas mais fre-quentemente consumidas pelas criancas em ambas as faixas etárias.26

O grupo de legumes e verduras foi referido como irregular e pouco consumido por vários autores em estudos com lactentes e pré-escolares.16,19,23,30,33"37 No Acre constatou--se que 53,4% das criancas de 6 a 24 meses nao consumiram hortalica nas refeicoes principais.37

Em relacao á frequencia semanal de consumo, legumes e verduras foram os menos ingeridos diariamente, por criancas de creches em Campina Grande (PB) (36% das que perma-neciam em período integral e 21% das que permaneciam em período parcial). A maioria das crianccas se enquadrava em um padrao de consumo entre uma a quatro vezes por semana.19

O número de porcoes diárias nao atingiu recomendacao de tres porccoes ao dia24,25 por crianccas frequentadoras de uma creche filantrópica.33 Em criancas entre 6 e 12 meses, o consumo médio per capita de legumes e verduras foi de 57 g/dia e a batata inglesa, a cenoura, a abóbora e o chuchu foram os vegetais mais consumidos.26 Observou-se, também, menor ingestao per capita (45,7 g/dia) desse grupo alimentar pelas criancas de 6 a 12 meses.26 Criancas das regioes Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentaram maior consumo de legumes de acordo com os dados da PNDS/ 2006.10

Pesquisas de abrangencia nacional9,38,39 constataram que o consumo de frutas, verduras e legumes é insuficiente pela maior parte da populaccao brasileira, em todas as faixas etá-rias. É importante destacar esses grupos de alimentos como umas das principais fontes diárias de vitaminas, minerais e fibras alimentares.

Consumo de cereais e leguminosas

Considerando o consumo de cereais na forma de farináceos para preparo de mingaus, constatou-se em Salvador (BA)26 que produtos á base de milho foram consumidos por 42,5% das crianccas entre 6 e 12 meses e por 41% das crianccas entre 12 e 24 meses idade.

Em Diamantina (MG),34 criancas de 6 a 24 meses apresentam alimentaccao caracterizada como de pobre qualidade e diversidade. O arroz, o feijao e a fari-nha de milho foram os principais alimentos preparados pelas maes ou responsáveis pelas crianccas avaliadas.34 Praticamente a totalidade dos pré-escolares estudados em Campina Grande (PB) consomem arroz diariamente, enquanto o consumo diário de feijao foi observado em 71% das crianccas.19 Em um assentamento rural em Minas Gerais verificou-se que entre maiores de 1 ano cereais e leguminosas, mais precisamente arroz (92,7%) e feijao (94,7%), foram os alimentos mais frequentemente consumidos, considerando-se o consumo de quatro a sete vezes por semana.20

Em relaccao ao padrao de consumo, foi verificado que o consumo médio per capita diário de cereais e derivados (arroz, biscoito, paes e macarrao), por criancas entre 6 e 12 meses, totalizou 28g/dia e o de feijao foi de 14g/dia. As crianccas de 12 a 24 meses apresentaram ingestao média per capita de cereais e leguminosas de 82 g/dia e 40 g/dia, respectivamente.26

Na PNDS/2006, estudo com abrangencia nacional,10 o consumo diário de arroz e/ou macarrao foi relatado por 77,4% das crianccas de 6 a 59 meses, de pao por 52% e de feijoes/lentilha por 66%. Arroz e pao foram alimentos mais frequentemente consumidos por crianccas residentes nas regioes Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Quanto ao consumo frequente de feijoes, as maiores frequencias ocorreram nas regioes Centro-Oeste e Sudeste. As crianccas das regioes Norte e Nordeste tiveram menor frequencia diária de consumo tanto dos cereais (arroz, macarrao e pao) quanto de leguminosas (feijoes e lentilha) quando comparadas com as criancas provenientes das outras regioes brasileiras.10

O consumo diário de cereais e leguminosas é indicado na infancia, desde o período de introducao da alimentacao complementar, aos 6 meses. Esses alimentos sao fontes de vitaminas do complexo B, ferro nao heme e zinco, dentre outras vitaminas e minerais, além de juntos construírem uma ótima fonte proteica.27,28

Consumo de óleos e gorduras

Foi verificado com dados de 4.322 criancas das cinco regioes do Brasil (PNDS/2006) que 51% consumiam alimentos fritos pelo menos uma vez na semana; maior ocorrencia de consumo, que variou entre uma a tres vezes por semana, foi verificado por crianccas oriundas das regioes Sul e Sudeste do Brasil.10

O grupo de óleos teve elevada frequencia de consumo diário em estudo feito em pré-escolares de Campina Grande, foi consumido por 76% das crianccas que permaneciam em tempo integral e por 90% que permaneciam em período parcial na creche.19

Em Salvador (BA) foi verificado que o consumo de óleo e margarina foi baixo por criancas de 6 a 12 meses e de 12 a 24 meses, a ingestao média foi de 0,7g/dia e 0,6g/dia, respectivamente.26

É válido destacar que em estudos dietéticos, frequen-temente, o consumo de óleos e gorduras, e também de sal, pode estar sub ou superestimado, devido á falta da identificacao adequada da quantidade usada no preparo dos alimentos.30 O consumo de frituras, excesso de sal e acúcar de adicao sao contraindicados na alimentacao da crianca.24

Consumo de acucares, doces e bebidas acucaradas

Accúcares e doces é um grupo que apresenta elevada frequencia de consumo pela populacao infantil, conforme verificado por diversos autores.10,12,19,26,30,31,40 Em Curitiba, Sao Paulo e Recife12 constatou-se que no preparo de mama-deiras de lactentes entre 6 e 12 meses em 90,4% eram adicionados acúcar, cereais, achocolatado ou ambos, no preparo com leite de vaca em pó.12 Essa adicao ocorreu no preparo de 54,7% das fórmulas infantis.

Estudo mostrou que o consumo diário de doces e tam-bém de refrigerantes ocorreu por aproximadamente 22% das crianccas avaliadas. Consumo pelo menos uma vez por semana de doces e refrigerantes foi verificado em mais de 70% das crianccas. Maior frequencia de consumo diário de doces e refrigerantes foi observada pelas crianccas das regioes Sul e Sudeste.10

O consumo médio diário de acúcar foi de 23g/dia por chancas de 6 a 12 anos e de 37g/dia por chancas de 12 a 24 meses, em estudo feito em Salvador.26 No Acre31 constatou-se que o consumo de doces e bebidas accucaradas equivaleu a 14% do total de energia ingerida por crianccas de 6 a 11 meses e por 18% do total de energia por chancas de 12 a 24 meses.

Estudo multicentrico feito em cinco cidades brasileiras verificou que o consumo de bebidas accucaradas, incluindo refrigerantes e sucos artificiais, correspondeu a 37% da energia proveniente de líquidos consumidos diariamente por crianccas na faixa de 3 a 6 anos.39 O consumo excessivo de bebidas acucaradas tem sido associado á ocorrencia de excesso de peso na populaccao pediátrica, favorece o desen-volvimento precoce de doencas crónicas nao transmissíveis, como o diabetes e a hipertensao arterial. De acordo com as recomendacoes atuais,41 a ingestao de acúcar livre deve ser equivalente a menos de 10% do valor energético total diário.

Seguranza alimentar

Inseguranca alimentar e/ou nível socioeconómico baixo se associou ao maior consumo de carboidratos e menor consumo de proteínas23,35,42 e ferro,23,31 em diferentes estudos. Alimentos dos grupos das carnes e ovos, cereais, frutas, hortalicas e gorduras apresentaram variacao de consumo, sao geralmente pouco consumidos por criancas com algum grau de inseguranca alimentar.22,23,43

Maior consumo de guloseimas pode se associar a menor renda familiar e menor escolaridade dos pais.19,20,44 Alta ingestao de café,19,23,44 pao e biscoitos19,22,44 pode ser observada com maior frequencia naqueles com menor nível socioeconómico ou insegurancca alimentar. Nao há recomendaccoes quanto á ingestao de café, no entanto é conhecido que seu consumo em excesso pode favorecer a dificuldade na absorcao de nutrientes, a exemplo do ferro.27 Alguns autores destacam a importancia das instituiccoes na melhoria da qualidade da alimentacao infantil.33,35,36,45 A garantia de cuidados em saúde e nutricao durante o período de permanencia em creches é favorável a criancas perten-centes a estratos socioeconómicos menos favorecidos.33

Adequagao de macronutrientes e fibra alimentar

Dentre os macronutrientes, proteínas e lipídios apresentaram achados mais frequentes de inadequacao. O consumo de proteína acima das recomendaccoes foi observado em estudos com criancas de diferentes faixas etárias.13,14,26,35,42 O consumo de lipídios abaixo do recomendado foi constatado em estudo multicentrico,11 além de outros feitos em Belém (PA)42 e em Vicosa (MG).46 Entretanto, consumo elevado de gordura saturada foi observado por alguns autores,11,16,30 o que pode caracterizar a qualidade da dieta ofertada e a elevada ingestao de lácteos. O consumo de lipídios pode estar

subestimado em alguns estudos devido á nao contabilizacao da gordura de adicao no preparo dos alimentos.

Estudo feito em nove capitais brasileiras11 verificou consumo de fibra alimentar superior á ingestao adequada das (Dietary Reference Intakes (DRIs)47 por apenas 22% das criancas com menos de 4 anos e 5% das criancas com mais de 4 anos. A ingestao média de fibra alimentar variou entre 9,2 a 10 gramas para 1.000 Kcal. O consumo de fibra alimentar na primeira infancia é pouco investigado.

Adequagao de micronutrientes

A avaliacao dos micronutrientes ferro, cálcio, zinco, sódio e vitamina A foi contemplada nesta revisao da literatura. Cálcio e zinco, em geral, tiveram suas neces-sidades alcancadas, e até superiores ás recomendacoes, em diferentes estudos.11,34,35,48 Ferro e vitamina A tiveram divergencias em relacao á adequacao em diferentes faixas etárias.13,31,37,48 Quanto ao consumo de sódio, o consumo superior ao recomendado foi o resultado mais frequente.11,42

Leite e derivados, que sao alimentos altamente consumidos pela populaccao pediátrica, sao as principais fontes alimentares associadas á adequacao de cálcio e zinco. Entretanto, a caseína do leite, assim como a presenca de fitatos, reduz a biodisponibilidade de zinco.49 A partir do sexto mes de vida, cerca de 70% das necessidades dos lactentes de ferro e zinco devem ser atendidos por meio da alimentaccao complementar.12

Elevada frequencia de crianccas com ingestao de cálcio superior ás quantidades recomendadas foi verificada em alguns estudos. Pesquisa48 com 445 criancas até 23 meses em Pernambuco e na Paraíba mostrou que o consumo de cálcio foi superior ao recomendado por todas as crianccas da faixa etária estudada. Em Caxias do Sul (RS),35 observou-se que 67% das 362 criancas estudadas, entre 2 e 6 anos, apresen-tavam consumo de cálcio igual ou superior ao recomendado. Estudo multicentrico feito com pré-escolares em escolas públicas e privadas constatou uma média de inadequacao no consumo de cálcio de 13,1% e 44,6% em menores de 4 anos e em crianccas com idade igual ou maior a 4 anos, respectivamente.11

Estudo13 com criancas pernambucanas mostrou elevado percentual de inadequacao de vitamina A por criancas entre

I e 3 anos e 4 e 5 anos, moradoras da regiao metropolitana. A inadequacao (inferior ao Estimated Average Requere-ment [EAR]) foi de 27,9% e 43,2%, respectivamente. Entre aquelas habitantes do interior urbano, a inadequacao foi de 48,9% e 54,3%, respectivamente. Em criancas de 7 a

II meses, no mesmo estudo, a mediana de consumo de vitamina A (314 ^g) se manteve abaixo do Adequate Intake (AI)47 (500 ^g). Outro estudo, também feito em Recife (PE), verificou consumo abaixo da EAR47 para vitamina A por 8,1% das criancas entre 24 a 47 meses e por 21,3% de 48 a 60 meses, menor percentual de inadequaccao atribuído á qualidade da alimentacao na creche.45

Deve ser levado em consideraccao que a biodisponibili-dade de vitamina A em alimentos de origem animal é maior quando comparada com os carotenoides com atividade pró--vitamina A.36,45 Fernandes et al.,36 além de verificar o consumo adequado de vitamina A por 77,9% das criancas menores de 5 anos, constataram que 58% do consumo foi

proveniente de alimentos de origem animal (vitamina A pré--formada) e 35% de origem vegetal (carotenoides).

Anemia ferropriva e hipovitaminose A sao deficiencias nutricionais caracterizadas como problema de saúde pública no Brasil. A deficiencia de micronutrientes, como a vitamina A, o ferro e o zinco, compromete o crescimento e desenvolvimento normais das criancas e diminui a resistencia ás doencas infecciosas.46 A hipovitaminose A apresenta algumas áreas endemicas no Brasil. De acordo com dados da PNDS/20069 puderam ser verificados níveis inadequados de vitamina A (0,70 ^mol/L) em 17,4% das criancas avalia-das, as maiores prevalencias ocorreram no Nordeste (19%) e Sudeste (21,6%) do país. Na mesma pesquisa, a prevalencia de anemia (hemoglobina < 11 g/dL) foi de 20,9% no Brasil, a maior prevalencia foi verificada na Regiao Nordeste (25,5%) e a menor na regiao Norte do país (10,4%).

Estudo analisou a densidade de ferro na dieta de crianccas de 6 a 59 meses, em Sao Paulo, e verificou que 1,1 mg/1.000 Kcal eram provenientes de ferro heme e 4,3 mg/1.000 Kcal na forma nao heme.50 Ferro de origem animal contribuiu com 0,6% e 14,3% do total de ferro ingerido por criancas de 6 a 11 meses e 12 a 24 meses, respectivamente.31

Em Sao Leopoldo (RS),18 estudo com 369 criancas entre 12 e 16 meses verificou que a ausencia de anemia esteve significativamente associada a maior consumo de ferro heme e vitamina C e com menor consumo de cálcio.

Observou-se que a média do consumo de leite de vaca foi estatisticamente menor nas crianccas que nao apresentaram anemia grave (523 ±315 mL) quando comparadas com aque-las com anemia grave (648 ± 387mL) (p = 0,01). Ou seja, o consumo de leite de vaca pode favorecer a adequaccao de cálcio e zinco, no entanto se relaciona á inadequaccao de ferro, pode ter efeito inibidor na absorccao do ferro dietético50 e favorecer a ocorrencia de anemia ferropriva.15

Consumo de sódio superior á recomendaccao foi verificado em média por 98,1% das criancas avaliadas em estudo com pré-escolares de escolas públicas e privadas de nove cidades brasileiras, com média de consumo diário de 2186,5 mg.11 Em Belém (PA)42 foi demonstrado por análise química de amostras de alimentos preparados no domicílio para o almoco que o teor de sódio foi mais elevado no estrato socioeconómico baixo (363,2 ± 148,3 mg) do que no alto (269,3 ± 138,0; p = 0,005). Excesso de sódio foi mais frequente nos alimentos do estrato socioeconómico baixo do que nos alimentos do alto (89,2% versus 31,7%; p = 0,027).

Em vigencia, o Plano Nacional de Reduccao de Sódio em Alimentos Processados tem como objetivo diminuir o consumo de sódio entre os brasileiros, incluindo accoes para reducao da adicao de sal em produtos industrializados e conscientizaccao quanto ao consumo racional do sal de adicao. Essas estratégias fazem parte do enfrentamento das doenccas nao transmissíveis, como hipertensao arterial e doencas cardiovasculares.51 De acordo com dados da Pesquisa de Orcamento Familiar (2002-2003),52 o sal de adicao e condimentos á base de sal se constituíram nas principais fontes de sódio na alimentaccao do brasileiro. Na pesquisa de 2008-200953 foi constatada uma reducao no consumo anual per capita de sal, entretanto houve um aumento no consumo de alimentos prontos processados.

Os resultados apresentados nesta revisao da literatura permitiram retratar a qualidade da alimentaccao do lactente e do pré-escolar brasileiro nos últimos anos. O padrao

alimentar e a ocorrencia de distúrbios nutricionais na infancia continua a ser motivo de preocupaccao, como pode ser exemplificado por estudos publicados no Brasil após o término da busca de dados para a presente revisao de literatura.54-57

Do ponto de vista metodológico, este artigo seguiu os princípios para revisoes sistemáticas da literatura, ou seja, a busca foi organizada segundo critérios explícitos abran-gentes e reprodutíveis, sucedida por análise crítica das informaccoes relevantes compiladas.

Conclusáo

Os resultados dos diferentes estudos reunidos nesta revisao da literatura possibilitam uma visao mais ampla quanto ás características do perfil alimentar do lactente e pré-escolar brasileiro. Apesar da heterogeneidade dos artigos avalia-dos, podemos verificar que, independentemente do nível socioeconómico, da regiao de origem ou da faixa etária, as inadequaccoes qualitativas e quantitativas relacionadas ao consumo de alimentos e nutrientes sao semelhantes. De um modo geral, é observada baixa frequencia do consumo de carnes, frutas, legumes e verduras. Aadequacao proteica na dieta é assegurada pelo elevado consumo de leite de vaca integral. Entretanto, a ingestao desse nutriente é, geralmente, excessiva. O preparo de mamadeiras é inapropriado, até com a adiccao de ingredientes desnecessários em fórmulas infantis. Observa-se, também, consumo demasiado de frituras, refrigerantes, doces, guloseimas e sal.

A ocorrencia de inadequacoes no consumo de nutrientes pode estar associada á perpetuacao dos principais problemas de saúde pública constatados na populacao pediátrica, como a anemia ferropriva, a hipovitaminose A e o excesso de peso, e ao aparecimento precoce de comorbidades altamente pre-valentes em adultos, a exemplo do diabetes mellitus e da hipertensao arterial sistemica.

Considerando que a escolha alimentar está relacionada nao apenas ao poder de compra, mas, principalmente, a accoes embasadas na educaccao alimentar e nutricional, é válido enfatizar a importancia da adoccao e implantaccao de políticas de saúde mais eficazes voltadas para essa populacao vulnerável, de modo a promover o adequado cres-cimento e desenvolvimento infantil e atuar na prevenccao de doenccas e agravos nutricionais. Os resultados reunidos nesta revisao constituem subsídios para a elaboraccao de estraté-gias que visem a melhorar a qualidade da alimentaccao do lactente e do pré-escolar brasileiro.

Conflitos de interesse

CSM e MBM participaram do projeto internacional da Danone Early Nutrition denominado Nutriplanet (2013) no Brasil; KVB faz parte da equipe da Danone Early Nutrition no Brasil.

Agradecimentos

Esta pesquisa recebeu apoio da Danone Early Nutrition como uma extensao do projeto Nutriplanet no Brasil (2013). O conteúdo deste artigo baseou-se exclusivamente em dados científicos e nao está vinculado a qualquer produto da

empresa apoiadora. O conteúdo científico do artigo é de responsabilidade dos autores.

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