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Apoio ao aleitamento materno pelos profissionais de saúde: revisão integrativa da literatura Academic research paper on "Educational sciences"

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Revista Paulista de Pediatria
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Academic research paper on topic "Apoio ao aleitamento materno pelos profissionais de saúde: revisão integrativa da literatura"

Rev Paul Pediatr. 2015;33(3):355-362

REVISTA PAULISTA DE PEDIATRIA

www.rpped.com.br

SOCIEDADE DE PEDIATRIA DE SÁO PAULO

ARTIGO DE REVISÂO

Apoio ao aleitamento materno pelos profissionais de saúde: revisáo integrativa da literatura

Jordana Moreira de Almeida*, Sylvana de Araújo Barros Luz e Fábio da Veiga Ued

CrossMark

Universidade Federal do Triángulo Mineiro (UFTM), Uberaba, MG, Brasil

Recebido em 11 de junho de 2014; aceito em 14 de outubro de 2014 Disponível na Internet em 10 de junho de 2015

KEYWORDS

Breastfeeding; Professional role; Patient care team

PALAVRAS-CHAVE

Aleitamento materno; Papel profissional; Equipe de assistencia ao paciente

Resumo

Objetivo: Fazer uma revisao da literatura para avaliar a prática de profissionais de saúde na promocao e no apoio a amamentacao.

Fontes de dados: Foram identificados artigos nas bases de dados Scopus, PubMed, Medline, Lilacs, SciELO, Web of Science e Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (Cinahl). Para a pesquisa usaram-se os descritores ''aleitamento materno'' (breast feeding), ''papel profissional'' (professional role) e ''equipe de assistencia ao paciente'' (patient care team). A busca limitou-se aos artigos em portugués, espanhol e ingles e compreendeu os anos de publicacao entre 1997 e 2013.

Síntese dos dados: A pesquisa encontrou 1.396 estudos, dentre os quais foram selecionados 18 que contemplavam a pergunta norteadora. A pesquisa revelou que a amamentacao é um desafio para o profissional de saúde, independentemente da área de atuacao, uma vez que ele se depara com uma demanda para a qual nao foi preparado e que exige sensibilidade e habilidade em seu trato. Os profissionais de saúde tém considerado a amamentacao como um ato puramente instintivo e biológico. Além disso, nota-se que muitos tém dominio teórico do assunto, mas ausencia do dominio prático.

Conclusoes: Os profissionais de saúde precisam ser mais bem capacitados para trabalhar com a promocao do aleitamento materno, seja por meio das instituicoes de ensino e formacao, seja por gestores da saúde, a fim de consolidar equipes multiprofissionais comprometidas com a saúde materno-infantil.

© 2015 Associacao de Pediatria de Sao Paulo. Publicado por Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados.

Support of breastfeeding by health professionals: integrative review of the literature Abstract

Objective: To review the literature in order to evaluate how health professionals promote and support breastfeeding.

* Autor para correspondencia. E-mail: jordana.25ma@hotmail.com (J.M. Almeida).

http://dx.doi.Org/10.1016/j.rpped.2014.10.002

0103-0582/© 2015 Associacao de Pediatria de Sao Paulo. Publicado por Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados.

Data sources: Studies from the following databases were retrieved: Scopus, PubMed, Medline, Lilacs, SciELO, Web of Science and Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (Cinahl). The descriptors ''breastfeeding'', ''professional role'' and ''patient care team'' were used in the research. The review was limited to articles in Portuguese, Spanish, and English published between 1997 and 2013.

Data synthesis: The search retrieved 1,396 studies, 18 of which were selected for being directly relevant to the main question. The review showed that breastfeeding is a challenge for health professionals, regardless of their specialization, as they have to face a demand that requires skill and sensibility, for which they are not prepared. Health professionals have considered breastfeeding a purely instinctive and biological act. Moreover, it is noticeable that many of them possess theoretical expertise on the subject, but lack the practical skills. Conclusions: Health professionals need to be better trained to work on promoting breastfeeding, whether by health and medical schools or by healthcare administrators, in order to consolidate multiprofessional teams committed to maternal-infant health. © 2015 Associacao de Pediatria de Sao Paulo. Published by Elsevier Editora Ltda. All rights reserved.

Introdujo

No que tange á saúde da crianca, a amamentacao é fundamental devido aos seus beneficios nutricionais, emocionais, imunológicos, económico-sociais e de aporte para o desenvolvimento, além dos beneficios á saúde materna. Infelizmente, é evidente o desmame precoce pelas nutri-zes brasileiras, mas, com o intuito de promover a saúde materno-infantil nos últimos anos, aumentou-se o estimulo ao aleitamento materno por parte de profissionais, servicos de saúde e órgaos governamentais.1

No Brasil, verifica-se que embora a maioria das mulhe-res inicie o aleitamento materno, mais da metade das criancas já nao se encontra em amamentacao exclusiva no primeiro mes de vida. Apesar da tendencia ascendente da prática da amamentaccao no pais, estamos longe de cum-prir a recomendacao da Organizacao Mundial de Saúde (OMS) sobre a amamentaccao exclusiva até o sexto mes de vida e a continuidade do aleitamento materno até o segundo ano de vida ou mais.2

Rego3 aponta, como causa do desmame precoce, a desinformacao da populacao em geral e, especialmente, a dos profissionais da área de saúde. Afirma, ainda, que o motivo alegado para o desmame é a recomendaccao da própria equipe de saúde. O percentual de difusao de informacoes erróneas se assemelha ao percentual de maes que abandonam a amamentaccao sob a alegaccao de que ''o leite nao sustenta'', o que evidencia a importancia da capacitaccao dos profissionais de saúde para incrementar a prevalencia do aleitamento materno.

Na experiencia dos Hospitais Amigos da Crianca, as difi-culdades para cumprir os dez passos para o sucesso do aleitamento materno existem e variam de local para local. Porém, os resultados obtidos por meio do esforco multipro-fissional demonstram a sua importancia, nao somente pela humanizaccao do atendimento materno infantil, mas pelo aumento das taxas de aleitamento materno exclusivo que tem sido alcancado com esse programa. Portanto, o Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria, constituido de renomados especialistas na área, apoia e incentiva o programa Iniciativa Hospital Amigo da

Crianca no país como uma maneira eficiente de incentivar e promover o aleitamento materno.4

As accoes de incentivo, promoccao e apoio ao aleitamento materno devem ocorrer no conjunto das acoes dos profissionais, durante o pré-natal, o pré-parto, o nascimento, assim como nas imunizaccoes, teste do pezinho e retorno para a consulta de puerpério. É essencial que a equipe de saúde tenha o papel de acolhimento de maes e bebes, disponivel para escuta e para o esclarecimento de dúvidas e aflicoes, incentive a troca de experiencias e facca, sempre que neces-sário, uma avaliacao singular de cada caso.5

Para obter informaccao precisa e real em relaccao á saúde da comunidade, é preciso colocar em relevo as caracteristicas pessoais, humanas e interdisciplinares de formaccao dos profissionais que atuam na área da saúde. A valorizaccao do profissional por meio de sua qualificaccao e o conhecimento do perfil de cada membro da equipe tornam-se essenciais para um desempenho adequado, melhorar o atendimento e, consequentemente, a saúde do usuário.6

O trabalho em equipe, o aperfeicoamento individual em habilidades múltiplas no contexto interdisciplinar e a cooperacao entre profissionais sao fundamentais para a fluidez do servicco de saúde. Atualmente, as equipes estao conquistando espaccos nas organizaccoes de servicco graccas á forma eficiente de estruturaccao organizacional e de apro-veitamento das habilidades humanas. Uma visao mais global e coletiva do trabalho torna-se necessária para um melhor aproveitamento das qualidades dos profissionais em relaccao á saúde materno-infantil.7

Faz-se necessário discutir as demandas da assistencia em amamentaccao e se há accoes práticas por tais atores, além de verificar se estao capacitados para solucionar tal demanda. Objetiva-se neste estudo conhecer as peculiaridades apon-tadas pela literatura sobre a importancia e influencia dos profissionais de saúde na promocao do aleitamento materno.

Método

Revisao integrativa, que delimitou as seguintes etapas per-corridas: 1) identificacao do problema ou da temática

(elaboraçâo da pergunta norteadora, estabelecimento de descritores e dos critérios para inclusâo/exclusâo de arti-gos); 2) amostragem (seleçcâo dos artigos); 3) categorizaçcâo dos estudos; 4) definicâo das informacoes a serem extraídas dos trabalhos revisados; 5) análise e discussâo a respeito das tecnologias usadas/desenvolvidas; 6) sín-tese do conhecimento evidenciado nos artigos analisados e apresentaçâo da revisâo integrativa.8,9

Estabeleceu-se a seguinte pergunta norteadora: ''Quais sâo as peculiaridades apontadas pela literatura sobre a importância de profissionais de saúde na promocçâo do alei-tamento materno?'' Os critérios de inclusâo adotados pelo presente estudo foram: a publicacâo ter como temática a promoçcâo do aleitamento materno pelos profissionais de saúde; publicacoes classificadas como artigo original e revi-soes bibliográficas, com no máximo 20 anos de publicacâo, divulgadas em língua inglesa, espanhola e portuguesa; publicaçcoes completas com resumos disponíveis e indexados nas bases de dados: Scopus, PubMed, Lilacs, Medline, Sci-ELO, Web of Science e Cinahl. Foram excluídos os editoriais, as cartas ao editor, os estudos reflexivos, bem como estudos que nâo abordassem a temática relevante ao objetivo da revisâo.

A pesquisa nas bases de dados foi feita de julho a outu-bro de 2013 e foi usada a terminologia em saúde consultada nos Descritores em Ciências da Saúde (DECS) e no Medical Subject Headings (MeSH), pelos quais se identificaram os respectivos descritores: aleitamento materno (breast feeding), papel profissional (professional role) e equipe de assistência ao paciente (patient care team).

As referências foram examinadas mediante um formu-lário adaptado de Ursi.10 Esse possibilitou a análise em relaçcâo aos seguintes aspectos: identificaçcâo do estudo (título do artigo, título do periódico, autores, país, idioma, ano de publicaçcâo); revista científica; e características metodológicas do estudo (tipo de publicaçcâo, tecnologia usada/desenvolvida, e público-alvo das mes-mas). Os artigos foram organizados por ano de publicacâo e classificados por níveis de evidência (de I a VI, I o maior), segundo Stetler et al.11 (tabela 1). A análise da qualidade dos artigos foi feita por dois avaliado-res independentes, os quais obtiveram concordância na classificaçcâo.

A seguir foram extraídos os principais dados com o uso do instrumento supracitado.10 O objetivo dessa etapa foi organizar e resumir as informaçcoes de apoio ao aleitamento materno pelos profissionais de saúde de maneira concisa e formar um banco de dados de fácil acesso e manejo. As informaçcoes abrangeram a amostra do estudo, os objetivos, a metodologia empregada, os resultados e as principais conclusoes de cada estudo.

Assim, após o percurso metodológico descrito, foram selecionados os artigos que contemplavam a pergunta norteadora do presente trabalho, bem como os que atendiam aos critérios previamente estabelecidos. Respeitaram-se os aspectos éticos relativos à feitura de pesquisas científicas. A análise das açcoes de apoio ao aleitamento materno por parte dos profissionais de saúde ocorreu mediante avaliacâo da metodologia de cada artigo e observou-se a composiçcâo da equipe profissional envolvida, além das demandas da assistência nessa área e a prática feita por tais atores.

Artigos excluidos da revisao 9

Figura 1 Etapas de inclusâo e exclusâo de estudos.

Resultados

Foram localizados 1.396 estudos distribuídos nas bases de dados usadas. Desse total, foram rejeitados 1.342 em razâo de incongruência com a temática de promocçâo do aleita-mento materno pelos profissionais de saúde. Nenhum estudo localizado nas bases de dados Cinahl e Web of Science foi usado, pois nâo abordavam o apoio ao aleitamento materno por profissionais de saúde. Na presente revisâo integrativa, portanto, foram potencialmente relevantes para ser analisados 27 estudos, advindos da leitura e análise dos títulos e resumos, mas nove nâo atendiam aos critérios de inclusâo e foram também rejeitados. Foram finalmente usados na presente pesquisa 18 artigos. (fig. 1)

Quanto ao tipo de delineamento dos estudos avaliados, evidenciou-se na amostra o predomínio de artigos qualitati-vos descritivos e revisoes. Quanto ao idioma, verifica-se que a língua inglesa foi a mais frequente (60,0%), seguida da lín-gua portuguesa (40%). Os artigos encontrados compreendem os anos de publicacâo de 1997 a 2013 e estâo apresentados na tabela 1. Os resultados da revisâo estâo relatados a seguir.

Segundo Dykes,12 ao mesmo tempo em que os profissio-nais de saúde influenciam positivamente as mulheres que amamentam, podem também ser uma fonte de suporte negativo quando proporcionam às pacientes informaçcoes

Artigos incluidos da revisao 1B

Tabela 1 Sintese dos principais resultados dos estudos relacionados à prática de profissionais de saúde no apoio à amamentacâo

Autoria/ Tipo de estudo Navel de Sintese dos estudos

Ano publicaçâo evidência11

Martins et al., 4 2009 Qualitativo descritivo IV O sucesso da prática do aleitamento materno depende da maneira como os profissionais de saúde abordam as mulheres e seus parentes

Dykes,12 2006 Qualitativo descritivo IV Conselhos imprecisos em relaçâo ao aleitamento materno pelos profissionais sâo repetidamente referidos em relacâo às práticas hospitalares

Moran et al.,13 2006 Revisao sistemática III Ao mesmo tempo em que os profissionais de saúde influenciam positivamente as mulheres que amamentam, podem também ser uma fonte de suporte negativo

Yaman et al., 1 4 2004 Transversal descritivo IV O nivel de conhecimento dos profissionais sobre amamentacâo nâo se traduz a favor da prática com seus próprios familiares

Barclay et al., 15 2012 Ecológico exploratório III Embora o profissional desempenhe um papel importante no estimulo inicial à amamentacâo, essa nâo é uma influência única, devem-se levar em consideraçâo os estímulos externos (familia, sociedade etc)

Brow et al., 16 2011 Qualitativo descritivo IV

Caminha et al. ,17 2011 Transversal descritivo IV O profissional deve se dispor a partilhar seu saber com a familia da nutriz e formar uma rede social que dê apoio

Marques et al. , 18 2010 Revisao narrativa IV A rede social da nutriz, dentre a qual estâo os profissionais de saúde, é capaz de exercer interferencia na decisâo de amamentar por meio de diferentes atitudes

Marinho et al., 19 2004 Transversal descritivo IV Os enfermeiros demonstraram atitudes mais positivas do que médicos e docentes em relaçâo à amamentacâo

Watkins et al., 20 20 1 0 Revisao integrativa IV As mulheres frequentemente relatam receber informaçôes escassas sobre o ato de amamentar por profissionais de saúde, incluindo o seu médico

Caldeira et al. , 21 2007 Transversal descritivo IV Os médicos demonstram que ainda têm pouca sustentacâo cientifica para abordar questöes mais complexas e nâo conseguem oferecer suporte adequado às mâes com maiores dificuldades de amamentar

Silvestre et al. , 22 2009 Qualitativo descritivo IV As mâes referem que nâo recebem apoio suficiente para amamentar ou atribuem a culpa a um profissional, em vez de a si mesmas

Gokgay et al., 23 1 997 Qualitativo descritivo IV As práticas de aleitamento materno sâo o resultado da dinámica do hospital, que também inclui as atitudes da equipe de saúde

Manzini et al., 24 2002 Qualitativo fenomenológico IV A amamentacâo na primeira hora de vida deve ser estimulada pelos profissionais que precisam apoiar esta causa e tornar-se, assim, amigos da crianca

Meier et al.,25 2013 Estudo de caso IV O aleitamento materno ainda nâo é priorizado, se comparado com outras terapias nutricionais nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatal

Araujo et al., 26 2007 Qualitativo descritivo IV É importante a capacitaçâo periódica do profissional de saúde para atuar no apoio à nutriz, em todas as suas dimensöes do ''ser mulher''

Hoddinotta et al.,27 2 0 07 Qualitativo IV O envolvimento de uma equipe multidisciplinar na

fenomenológico implementaçâo do apoio ao aleitamento materno pode ser mais eficaz do que uma abordagem especialista

Aiken et al.,2B 2013 Qualitativo fenomenológico IV O aconselhamento profissional é útil para reforcar a autoestima e confianca na capacidade de amamentar

inconsistentes e recomendaçöes inadequadas. Informacöes conflitantes e, de fato, conselhos imprecisos sâo repetidamente referidos em relacçâo às práticas hospitalares. Moran et al.13 reforcam que os profissionais de saúde têm sido fre-quentemente identificados como inadequados para apoiar a amamentacâo por fornecerem informacöes contraditórias e até mesmo enganosas.

Em uma análise feita por Yaman e Akçam,14 sobre a influência do nivel de conhecimento e das atitudes de promoçcâo do aleitamento materno no contexto familiar dos profissionais, observou-se que o grau de instruçcâo teórico deles nâo se traduziu a favor da prática da amamentaçcâo no cotidiano de sua própria família.

Segundo Barclay et al.15 e Brow et al.,16 um elemento a se considerar é que, embora o profissional desempenhe um papel importante no estímulo inicial à amamentaçcâo, essa nâo é uma influência única, pois o papel da família e dos amigos pode ser maior. Por outro lado, Caminha et al.17 relatam que é importante o profissional de saúde considerar a ''bagagem cultural'' materna como uma influência na decisâo de amamentar. Contudo, o profissional deve se dispor a partilhar seu saber com a família e formar uma rede social que dê apoio e suporte à nutriz para superar os obstáculos.

Os membros que compöem a rede social da nutriz, den-tre eles os profissionais de saúde, sâo capazes de exercer interferência na decisâo de amamentar, como o incentivo e apoio à iniciativa, o repasse de conhecimentos e valores culturais ou o repasse de tradicöes familiares aliadas ao cultivo do desinteresse e o desestímulo, devido à pressâo exercida sobre a lactante em relacçâo à forma de alimentar a criança.18 Diante disso, Marques et al.1B infe-rem sobre a necessidade de implantaçcâo de novas práticas de saúde no que tange à forma de cuidado com esse grupo populacional.

Um aspecto relevante é a maneira como os profissio-nais de saúde abordam as mulheres e seus parentes, pois nem sempre as dúvidas e aflrcöes desses sâo colocadas de maneira espontânea. Instituicöes como a OMS e o Fundo das Nacöes Unidas para a Infância (Unicef) preconizam que, para que essa abordagem seja feita de uma maneira efetiva, é necessário usar habilidades de aconselhamento como: escutar, compreender e oferecer ajuda às mâes que estâo amamentando, fortalecê-las para lidar com pressöes, promover sua autoconfiançca e autoestima e prepará-las para a tomada de decisöes.4

Brow et al.16 concluem que as mâes sofrem várias influências sobre a decisâo de amamentar, como falta de conhecimento e motivaçcâo, facilidade do uso de fórmulas infantis, dentre outras, e embora os profissionais estejam dispostos a apoiar, se deparam com a falta de tempo e recursos para tal. Fica evidente a necessidade de se oferecer um suporte consistente, aumentar o número de profissio-nais envolvidos para aprimorar o tempo e oferecer recursos materiais para facilitar o manejo. Apenas assim será possi-vel capacitá-los e oferecer apoio à prática do aleitamento materno.

Um estudo de Marinho e Leal,19 com o objetivo de investigar as atitudes de profissionais de saúde em relaçcâo ao aleitamento materno, verificou diferençcas estatísticas em decorrência da profissâo, do local de trabalho e da especialidade de enfermagem. Os enfermeiros demonstraram

atitudes mais positivas do que médicos e docentes. Wat-kins e Dodgson20 observaram que o conhecimento atribuído à enfermagem por meio de capacitacöes tem implicates positivas para prática e é um fator importante no apoio a uma mâe na decisâo de amamentar. No entanto, as mulhe-res frequentemente relatam receber informacöes escassas sobre o ato de amamentar por profissionais de saúde, incluindo o seu médico.

Caldeira et al.21 relatam em seu estudo, pautado na análise do desempenho de profissionais em testes de conhe-cimento específicos em aleitamento materno por meio de questionário oferecido a 41 profissionais de nível superior e a 152 de nivel médio, que, na maioria dos casos, os profissionais de saúde têm o conhecimento teórico das vantagens do aleitamento materno. Na análise dos dados dos questionários evidenciou-se uma média superior a 80% para todas as categorias profissionais considerada satis-fatória. Todavia, o desempenho abaixo de 50% para os médicos em relaçcâo à técnica da amamentaçcâo e ao manejo dos principais problemas da lactaçcâo demonstra que tais profissionais ainda têm pouca sustentaçcâo científica para abordar questöes mais complexas e nâo conseguem ofere-cer suporte adequado às mâes com maiores dificuldades em amamentar.

Por meio de uma entrevista semiestruturada feita com cinco auxiliares de enfermagem, seis médicos residentes e duas enfermeiras em um centro obstétrico sobre o conhe-cimento dos ''Dez passos para o sucesso da amamentacâo da Iniciativa Hospital Amigo da Criança'', Silvestre et al.22 verificaram que quase metade dos profissionais nâo foi capaz de relatar pelo menos um passo. Considerando-se que esse assunto deveria ser familiar para os profissionais de instalacöes hospitalares, pode-se afirmar que o déficit de conhecimento é considerável. Por isso, em alguns casos, apesar da boa intençcâo transmitida pelo profissional de saúde, as mâes sentem que nâo receberam apoio suficiente ou atribuem a culpa a um profissional, em vez de a si mesmas.

As práticas de aleitamento materno, longe de se constituir um processo individual que envolveo apenas mâe e filho, sâo o resultado da dinâmica do hospital, que também inclui as atitudes do pessoal de saúde. Existem obstáculos aos ''Dez passos para o sucesso da amamentaçâo'' que sâo superáveis, apesar das condicöes desfavoráveis que os hospitais públicos oferecem atualmente.23

Em uma pesquisa feita por Manzini et al.24 na sala de parto de um hospital foi destacado que a maioria dos profis-sionais envolvidos tinha conhecimento a respeito dos ''dez passos'' e consideravam importante a amamentacâo na sala de parto, pelos beneficios trazidos para o binómio, principalmente a formaçcâo de vínculo e apego entre ambos. Contudo, dentre as dificuldades vivenciadas pelos profissi-onais, destacam-se o parto cesáreo e a falta de capacitaçcâo em aleitamento materno. Os entrevistados ressaltaram a necessidade de maior integracçâo entre a equipe e que as orientacöes deveriam ser iniciadas no pré-natal. Essa ati-vidade deve ser continuada e os profissionais devem ser estimulados a apoiar essa causa e tornar-se, assim, amigos da criançca.24

Meier et al.25 ressaltam que o aleitamento materno ainda nâo tem prioridade se comparado com outras terapias nutricionais nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatal

(UTIN). Membros das equipes de UTIN e pacientes têm informaçcoes inconsistentes, aliadas à falta de informaçcoes sobre o manejo da lactacçâo para aprimorar a dose e o período de exposiçcâo das mamadas. As evidências para o uso de leite humano na UTIN sâo convincentes, mas a traducâo dessa evidência em melhores práticas, ferramentas, políticas, procedimentos e pontos de discussâo é ainda limitada.25

Caminha et al.17 averiguaram que diante das dificuldades maternas enfrentadas no início da amamentaçcâo, o pro-fissional de saúde, além do conhecimento teórico e das competências clínicas em aleitamento materno, necessita de habilidades de comunicaçcâo. Para adquirir essa habi-lidade, é importante diferenciar entre o simples ato de aconselhar e o aconselhamento. Se aconselhar é dizer o que se deve fazer, aconselhamento é uma forma de atuacâo em que o profissional escuta e compreende e, dessa forma, oferece ajuda para que a mâe planeje, tome decisoes e se fortaleca para lidar com pressoes e aumentar sua autoestima e autoconfianca.

Araújo e Almeida26 analisam a amamentacâo como um grande desafio para o profissional de saúde, uma vez que ele se depara com uma demanda para a qual nâo foi preparado e que exige sensibilidade e habilidade no seu trato. É importante a capacitacâo periódica do profissional de saúde para atuar na assistência em amamentaçcâo, em uma abordagem que ultrapasse as fronteiras do biológico e com-preenda a nutriz em todas as suas dimensoes do ''ser mulher''. Fica evidente que o profissional de saúde orienta suas açcoes de incentivo ao aleitamento e entende esse fenómeno como um ato natural, decorrente do instinto materno, apesar de reconhecer que esse processo é determinado por objetos sociais do contexto familiar.26

Hoddinott et al.,27 em seu estudo, concluem que se torna fundamental incluir no ensino técnico e superior o tema ''amamentaçâo'' em caráter específico e multidisciplinar e estabelecer normas nacionais para a educaçcâo, com financiamento designado e participaçâo de especialistas. Há a hipótese de que, ao envolver uma equipe multidisciplinar na implantaçcâo de um apoio mais efetivo ao aleitamento materno, uma intervençcâo que envolva vários profissionais pode ser mais eficaz do que uma abordagem especialista. Relaçcoes entre profissionais da saúde podem ser um fator importante no sucesso de intervenues positivas na promocçâo do aleitamento materno. Profissionais de saúde podem sentir-se mais capacitados se conheci-mentos e experiências forem partilhados dentro e entre as equipes.

Discussâo

Os estudos analisados demonstram, em sua maioria, que o profissional de saúde nâo está capacitado para a promoçcâo do aleitamento materno. Idealmente, todos os profissionais de saúde com os quais as gestantes e puérperas entram em contato deveriam estar comprometidos com a promoçcâo do aleitamento e capacitados a fornecer informaçcoes apropri-adas, além de demonstrar habilidade prática no manejo da amamentaçcâo.

No entanto, os estudos encontrados nâo apresentam um método de avaliacâo em comum, que seja específico e

capaz de analisar a habilidade prática do manejo do aleita-mento por uma equipe multiprofissional, além de nâo propor soluçoes, o que prejudica a discussâo dos achados. Talvez o fato se justifique pela pouca valorizaçcâo e nova perspectiva de atuacçâo multiprofissional.

No atual cenário das dificuldades na amamentaçcâo, o aconselhamento dos profissionais de saúde é de fundamental importância para o auxílio à superacâo das dificuldades pré-estabelecidas. Ele deve ocorrer em diferentes momentos: no pré-natal, na sala de parto, no alojamento conjunto e no puerpério. Essas informacoes e orientacoes devem se estender também à rede de apoio familiar, pois uma mâe que nâo amamenta facilmente perde a confiancça em si mesma e torna-se suscetível à pressâo de parentes e conhe-cidos, além de repassar essa angústia a outras nutrizes. Ainda assim, mesmo que determinada mâe seja profissio-nal de saúde, ela também está sujeita às mesmas pressoes familiares, sociais e emocionais. Por isso se faz necessário intervir da mesma forma que as demais, pois o aconselhamento profissional vem para reforcar a autoestima e confianca na capacidade de amamentar.17,28

O que se observa rotineiramente dentro dos serviçcos de saúde é o trabalho isolado dos profissionais, cada qual desenvolve sua funçcâo de forma isolada e sem interaçcâo com a equipe de saúde. Muitas vezes a falta de uma abordagem comum, coordenacçâo e cooperaçcâo entre os pro-fissionais é problema persistente que atrapalham a confianca das mulheres em relaçcâo à amamentaçcâo. A falta de orientaçcâo materna adequada, como um fator contribuinte para diminuiçcâo da duraçcâo do aleitamento materno, é uma questâo agravante principalmente para adolescentes e mâes iniciantes que pretendem amamentar, menos propensas a iniciar ou sustentar a amamentaçcâo.

Os profissionais de saúde, dentre eles médicos, enfermei-ros, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacio-nais, fonoaudiólogos, dentre outros, e mais especificamente o médico ginecologista e obstetra, por ter maior contato com a gestante no pré-natal, assim como o médico pediatra, precisam todos compreender a amamentaçcâo como um pro-cesso biopsicossocial, dinâmico, relacional e suas mudançcas ao longo do tempo. As pessoas respeitam muito a figura do médico como detentor de conhecimento e depositam sua confiança no aconselhamento feito por eles. Assim, a amamentaçcâo é um processo que deve ser muito valorizado e incluído nas consultas.

As mâes procuram o profissional para solucionar os seus problemas relacionados ao aleitamento, mas o profissional geralmente impoe tantas normas e regras que nâo contem-plam sua realidade e isso acaba gerando medo e insegurançca na nutriz. Na rotina da mâe, torna-se necessário sair do que é teorizado e contemplar o que ela vive dentro da sua realidade, além de ajudá-la a promover reflexoes em relaçcâo à melhor atitude a ser tomada, na tentativa de melhorar seus anseios e promover a prática saudável do aleitamento materno para seu filho.

Todos os profissionais, sem exceçcâo, deveriam ser contemplados em suas disciplinas de formacçâo, com módulos que demonstrassem a importância de se abrangerem parâ-metros interdisciplinares de colaboraçcâo com o aleitamento materno. As instituiçcoes de ensino precisam contribuir para esse processo.

Quando os profissionais de saúde estâo confiantes em suas próprias habilidades para apoiar as mulheres que amamen-tam, tornam-se mais propensos a promover positivamente o aleitamento materno e oferecer apoio às mâes. A assistência ao aleitamento materno descortina um universo multiprofis-sional, em que a atuaçcâo desses diversos atores constitui-se objeto de pesquisa.

Consideraç6es finais

A literatura nâo expöe de forma clara a relevância dos profissionais de saúde em torno da promocçâo do aleita-mento materno. Há poucos estudos que demonstrem o papel dos profissionais de saúde que podem constituir uma equipe de apoio à amamentaçcâo, incluindo elementos de educacçâo, resoluçcâo de problemas e suporte adequado. A falta de preparo dos profissionais de saúde para lidar com o fator amamentaçcâo ficou evidente nos estudos analisados e, principalmente, a figura do médico, que deveria ser o protagonista em defesa da saúde por meio do aleitamento materno.

Pode-se concluir que os profissionais de saúde precisam ser mais bem capacitados para trabalhar com aleita-mento materno. Sugere-se um maior incentivo por parte dos gestores (municipais, estaduais e federais) em formar equipes multiprofissionais compromissadas com a saúde materno-infantil e a melhoria na abordagem de conteúdos programáticos teórico-práticos nas instituicöes de ensino técnico e superior.

O incentivo ao aleitamento materno deve acontecer por meio de melhorias e mudançcas por parte de todas as equipes profissionais. Sâo necessárias modificacöes principalmente nas rotinas dos hospitais e deve-se esta-belecer a implantacâo dos ''Dez passos para o sucesso da amamentacâo''. Esses passos norteiam e reforcam o apoio efetivo ao aleitamento materno, além de ser um dos requisitos para implantacçâo do Hospital Amigo da Crianca.

Finançiamento

O estudo nâo recebeu financiamento.

Conflitos de interesse

Os autores declaram nâo haver conflitos de interesse. Referências

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2. Chaves RG, Lamounier JA, César CC. Factors associated with duration of breastfeeding. J Pediatr (Rio J). 2007;83:241-6.

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